
Uma veia que salta do braço, correndo em fio contínuo até se desmembrar pelas ramificações dos dedos, vermelhos e tesos.
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Segurava a mala, de couro marrom envelhecido e alças gastas. A mesma mala de couro que cheirava a armário, que trazia consigo o mofo do buraco escuro em que ficou esquecida por muito tempo. Sentia olhares queimando suas costas, e era como se esses olhares o empurrassem ainda mais para adiante. De costas não se podia ver sua expressão. Ele ria. Arfava. Não sabia se era por causa do peso da mala, ou se era por causa do fardo que abandonava. A vida que se confundia com o mesmo buraco escuro em que a mala e ele ficaram metidos.
Um passo depois do outro, e ele sentia o vento no rosto. Ele, que se expulsou de um ambiente hermético. Ele, para quem o ar era apenas ausência. Percebeu que também cheirava a mofo. Precisava lavar-se. Naquele lugar em que as árvores estavam todas curvadas em reverência, ele andava ereto, e se comprazia com o atrito daquela força invisível. O mundo se enchia de ar, tornava-se respirável à medida que avançava, e ele caminhou hirto em linha reta, carregando a mala pesada, sem trocá-la de mão, até se tornar um ponto muito pequeno no chão vermelho de terra batida. As árvores começaram a rarear, e o ar, tão leve, num átimo se tornou pesado. Uma densidade impregnada de sabor. Um anúncio do tempo sobre a hora chegada.
De olhos vivos, que por um longo tempo se haviam embotado pela inércia do anoitecer, ele viu o mar revolto a espargir suas águas, a abrir reentrâncias. As ondas lhe falavam, numa língua muito própria, e seu rosto se contorcia. Negociavam o convite repetido pelo mar ruminante. E não tendo outra escolha senão ceder ao domínio inconteste das águas inquietas, abriu a mão num movimento rápido e deixou a mala afundar na areia vermelha e movediça que engolia vagarosamente também seus pés. Despiu-se, e com o olhar preso muito longe no horizonte, caminhou de encontro às ondas, sem temê-las ou adorá-las. As ondas, que guardavam tão somente um destino. E nelas se lavou, e delas se embriagou, e seguiu adiante, limpo, profundo, sereno.
A mala, sentada na areia como uma gorda senhora, a tudo assistiu, e as alças, como duas mãos que não são mais que dois pequenos ídolos, se moviam de um lado para o outro, com a brisa, aplaudindo o espetáculo. As cortinas se fecharam. O mar abrandou.
Um passo depois do outro, e ele sentia o vento no rosto. Ele, que se expulsou de um ambiente hermético. Ele, para quem o ar era apenas ausência. Percebeu que também cheirava a mofo. Precisava lavar-se. Naquele lugar em que as árvores estavam todas curvadas em reverência, ele andava ereto, e se comprazia com o atrito daquela força invisível. O mundo se enchia de ar, tornava-se respirável à medida que avançava, e ele caminhou hirto em linha reta, carregando a mala pesada, sem trocá-la de mão, até se tornar um ponto muito pequeno no chão vermelho de terra batida. As árvores começaram a rarear, e o ar, tão leve, num átimo se tornou pesado. Uma densidade impregnada de sabor. Um anúncio do tempo sobre a hora chegada.
De olhos vivos, que por um longo tempo se haviam embotado pela inércia do anoitecer, ele viu o mar revolto a espargir suas águas, a abrir reentrâncias. As ondas lhe falavam, numa língua muito própria, e seu rosto se contorcia. Negociavam o convite repetido pelo mar ruminante. E não tendo outra escolha senão ceder ao domínio inconteste das águas inquietas, abriu a mão num movimento rápido e deixou a mala afundar na areia vermelha e movediça que engolia vagarosamente também seus pés. Despiu-se, e com o olhar preso muito longe no horizonte, caminhou de encontro às ondas, sem temê-las ou adorá-las. As ondas, que guardavam tão somente um destino. E nelas se lavou, e delas se embriagou, e seguiu adiante, limpo, profundo, sereno.
A mala, sentada na areia como uma gorda senhora, a tudo assistiu, e as alças, como duas mãos que não são mais que dois pequenos ídolos, se moviam de um lado para o outro, com a brisa, aplaudindo o espetáculo. As cortinas se fecharam. O mar abrandou.
Pintura: A voz dos ventos, René Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1928)



