sábado, 28 de janeiro de 2012

O fado é verde

Para dedos não brocham e café com canela.


O fado é verde. Li nas fitas amarradas à mochila encaixada nas costas largas que perambulavam na minha frente. Eram duas fitas. Ou havia mais? Chovia, e a umidade do ar distorcia imagens, multiplicava símbolos, pluralizava os cachos vermelhos e os pelos ruivos cobrindo os braços, minguando na raiz dos dedos. Ali, já dourados.

Segurávamos os mesmos dedos entre as mãos. Aqueles que não hão de brochar. Os dedos colhidos da primeira Safra de palavras plantadas em papel. O preto sobre o branco, sob o nosso olhar.

De onde vem essa gente vermelha? Talvez desaguem nesse planeta vindos do mesmo lugar. Esses homens ruivos, de sorrisos largos. E como água se espalham, fluidos que são. Transitam aqui e ali. E desaparecem, atrás da taça de vinho branco, de um outro sorriso mais perscrutador que eloquente. Tornando-se raros. Etéreos.

Vem daí o meu assombro pelos russos? Eu os leio. Robustos. Como quem teme a morte e quer desvendar o mistério. Espero a mão que me segura a surgir entre uma e outra página para me salvar. Os russos, vermelhos, ruivos, brancos, grandes. Os ruivos.

Mas esse trazia o fado na pele postiça. Verde. O fado é verde? Semeador. O fado verde que trouxe essa nuvem benfazeja. Essa alegria plural. Que indica a existência de mais de um. Do semelhante. Do que também vive a realidade inventada. Invento meu cenário de ruivos fluídos. E depois da passagem dessa gente, já não sou mais quem eu era. Nem meus dedos são iguais. Meu pilar sustentado pelo sonho não teme mais ruir.

A fila anda. Ele se esvai por entre os dedos(!). Agora é a minha vez de ver de perto a dona da história. A criadora da Anna. Da outra. Daquela que ainda vai nascer tremeluzindo nos olhos a alegria de ser.

E não tive coragem de estender meu braço, lhe tocar o ombro branco branco branco, por baixo do céu negro de sua camisa e perguntar: se o fado é verde, quanta canela vai no teu café?


Fotografia: Desenhe com o dedo, Lygia Clark 1920 - 1988 (plástico e água, 1966)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Gota

Constatei o fato, então. Você foi embora cedo demais, e as palavras chegaram tardiamente. Nesse hiato me entorpeci, atendendo a convites outros. Fui aos poucos me fazendo, compondo-me de achados, antes perdidos ou desprezados.

Agora preciso gastar-me. Letra a letra vou desfazendo essa existência que já não reconheço minha, mas que ainda está em mim. Torpe. E as palavras chegam-se-me esparsas. Descem de algum lugar que não consigo apreender. E não me preenchem, corroem. Vejo-me escoar da matéria da qual fui feita. E com certo alívio.

Esgoto as palavras que me sobrevém, gotejantes. E com elas mesmas me lavo, me esvaio num laivo de lucidez, gota a gota. Da gota ao grito. Esgoto-me. E é como se eu estivesse pedindo perdão.

Escrevo para desaprender a vida. Escrevo porque me envergonho da minha voz. E do que se me resta, ainda sorrio. Mas como dói.


Pintura: Mulher nua contemplando seu próprio corpo transformando-se em etapas, três vértebras de uma coluna, céu e arquitetura, Salvador Dali 1904 - 1989 (óleo sobre tela, 1945)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Memória da chuva

A
Acordo ouvindo o barulho da chuva, chuva forte, a primeira depois deste seco mês de Agosto. Sinto doer meu joelho, lembro da operação, viro para o lado e penso que não preciso levantar, posso fazer o que se deve fazer num dia de chuva, tomar um gole d’água, ir fazer xixi, me enroscar no travesseiro e voltar a dormir.

Sono gostoso de final de noite, já manhã, sonho, sonho muito. Sonho... sonho com o que mesmo? Foram tão bons os sonhos que tive vontade de escrevê-los, mas como não já não guardo caneta e papel no meu criado-mudo, fui buscar o computador, no que o abri, entrei na minha caixa de e-mails e respondi quatro assuntos completamente diferentes, aí sim, abri o word para escrever os sonhos e... sumiram, sumiram! Tento me concentrar para lembrar, mas toca o celular, mais um assunto. E os sonhos? Fecho os olhos para tentar rever, mas a luz da tela me impede de ver lá, lá onde estão os sonhos. Sinto doer o joelho e lembro que preciso levantar, ir fazer exames médicos para a cirurgia e levar os papéis ao seguro saúde para obter uma prévia de orçamento para pagamento dos honorários médicos.


Beatriz Lefèvre, São José dos Campos



Leio, ouvindo o barulho da chuva, a mesma chuva que continua a lavar a cidade. A minha é outra, mais barulhenta que a sua, mais poluída, portanto, precisa de mais água, de mais lágrima para se render de seus pecados multicoloridos, multifacetados. As múltiplas faces do cenário da minha, da sua cidade, são o reflexo dos múltiplos estados de consciência que vivemos: eu na vigília, eu no sono, no sonho. Sonhos? Eu também já tentei ser Dali, e trazer para a vigília o sonho sonhado na penumbra da noite, no lusco-fusco de minhas pálpebras cerradas. Afinal, o negro da noite as nossas cidades não conhecem mais. Não fosse pela atividade frenética após o pôr do sol, seria pelo brilho da auréola dos santos que lhe dão os nomes. Mas o sonho continua na sua zona de mistério, como misteriosa é a letra que separa o sono do sonho, a letra muda que grita as diferenças entre um e outro estado. Acendi o abajur sobre o mistério, mas com a luz espantei os dois: o sono e o sonho.

Lembro-me de um tempo em que minha maior atividade era a inércia de sonhar. Era na vertical que meus pés descansavam. Sonhava...sonhava com o que mesmo? Não lembrava e agora já não me lembro de não lembrar. Essa tela de computador é um rosto de olhos abertos que espanta a experiência vivida na memória. Não lembro dos sonhos, do tempo sonhado, mas lembro da dor. Ela ainda está aqui, lembrando-me que vivi algo real, marcado no corpo, cicatrizado. Como será a cicatriz de um sonho? Será a mesma da chuva que espanca o asfalto? Eu nunca vi a marca da chuva no chão da cidade, mas ela está lá, acolhida no mesmo mistério do sonho.


Ana Karina Bucciarelli, São Paulo


Pintura: A chuva, March Chagall 1887-1985 (óleo e carvão sobre tela, 1911)
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