quinta-feira, 4 de março de 2010

A espectadora


Uma veia que salta do braço, correndo em fio contínuo até se desmembrar pelas ramificações dos dedos, vermelhos e tesos.
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Segurava a mala, de couro marrom envelhecido e alças gastas. A mesma mala de couro que cheirava a armário, que trazia consigo o mofo do buraco escuro em que ficou esquecida por muito tempo. Sentia olhares queimando suas costas, e era como se esses olhares o empurrassem ainda mais para adiante. De costas não se podia ver sua expressão. Ele ria. Arfava. Não sabia se era por causa do peso da mala, ou se era por causa do fardo que abandonava. A vida que se confundia com o mesmo buraco escuro em que a mala e ele ficaram metidos.

Um passo depois do outro, e ele sentia o vento no rosto. Ele, que se expulsou de um ambiente hermético. Ele, para quem o ar era apenas ausência. Percebeu que também cheirava a mofo. Precisava lavar-se. Naquele lugar em que as árvores estavam todas curvadas em reverência, ele andava ereto, e se comprazia com o atrito daquela força invisível. O mundo se enchia de ar, tornava-se respirável à medida que avançava, e ele caminhou hirto em linha reta, carregando a mala pesada, sem trocá-la de mão, até se tornar um ponto muito pequeno no chão vermelho de terra batida. As árvores começaram a rarear, e o ar, tão leve, num átimo se tornou pesado. Uma densidade impregnada de sabor. Um anúncio do tempo sobre a hora chegada.

De olhos vivos, que por um longo tempo se haviam embotado pela inércia do anoitecer, ele viu o mar revolto a espargir suas águas, a abrir reentrâncias. As ondas lhe falavam, numa língua muito própria, e seu rosto se contorcia. Negociavam o convite repetido pelo mar ruminante. E não tendo outra escolha senão ceder ao domínio inconteste das águas inquietas, abriu a mão num movimento rápido e deixou a mala afundar na areia vermelha e movediça que engolia vagarosamente também seus pés. Despiu-se, e com o olhar preso muito longe no horizonte, caminhou de encontro às ondas, sem temê-las ou adorá-las. As ondas, que guardavam tão somente um destino. E nelas se lavou, e delas se embriagou, e seguiu adiante, limpo, profundo, sereno.

A mala, sentada na areia como uma gorda senhora, a tudo assistiu, e as alças, como duas mãos que não são mais que dois pequenos ídolos, se moviam de um lado para o outro, com a brisa, aplaudindo o espetáculo. As cortinas se fecharam. O mar abrandou.


Pintura: A voz dos ventos, René Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1928)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Suplício da chama


Engolia a comida com dificuldade. Sua garganta fechava para tudo que vinha de fora, como se as coisas exteriores estivessem revestidas de malquerença. As lágrimas que desciam silenciosas de seus olhos fluíam rápidas até a boca, e ali se espalhavam entre os vincos que adornavam seus contornos. Tantos anos de exercício entre um trago e outro para construir esses sulcos. Sulcos que de súbito ganhavam serventia, drenando as próprias águas que lhe davam agora de beber.

Largou os talheres, simetricamente como gostava, e procurou no bolso o fósforo para acender o cigarro. Alimentava uma resistência indócil aos isqueiros, por não haver qualquer semelhança entre as chamas que eles produziam e as chamas das velas, pelas quais ela nutria um especial encantamento. Os palitos de fósforo não só traziam a memória do passado, como a obrigava a habilidade de saber riscá-los com precisão para obter a chama na primeira tentativa. A mesma precisão nervosa que uma enfermeira novata se obriga a achar a veia de um paciente quando observada pela enfermeira chefe.

O suspiro impregnado de fumaça era a pausa que refrescava os dias quentes e embrutecidos que atravessava. Ela se esvaziava, então. Mas até esse intervalo parecia lhe querer dizer que não há suspensão que resista ao tempo, como não há brasa que não queime ardilosamente a seda de um cigarro. Do cigarro que ela segurava entre os dedos de sua mão abandonada a quase tocar o chão do boteco de paredes decoradas de espessa gordura.

Na mesa da frente duas mulheres conversavam sobre as agruras de seus destinos. E riam alto, contando as garrafas de cerveja que já haviam bebido.

Os tragos eram os aliados para enfrentar a quietude inquieta que se estabelecia entre os dois. O cigarro era a moeda na qual ela se fiava, enquanto ele insistia em manter a naturalidade de seu gestual como que para diminuí-la ainda mais. Ele pediu a conta e dois bombons de chocolate, para adoçar o fim que por tradição teimava em ser amargo. Uma última gentileza.

No carro tocava o primeiro movimento da nona sinfonia de Beethoven. Um allegro ma non troppo que ela desejava também fosse a sua última, com aquela companhia. E as cinzas batidas do cigarro, ganhavam as calçadas fragmentando a dor dos lábios herméticos que não ousavam dizer palavra.


Pintura: Fumando sozinha, Pat Jager 1985 (óleo sobre tela)

sábado, 23 de janeiro de 2010

Ruínas


É essa dor de cabeça que não cessa. Já tomei todos os comprimidos, tentando descomprimir a respiração para aliviar o pensamento. O veneno que nos salva em forma de antídoto. E sofremos todos os dias, com que fim?

Talvez viver em câmera lenta, submersa na vagarosidade de quem se move mergulhado no mar. Sem correntes que me prendam, filha das correntes que bailam fluídas no oceano. Livre, livre, livre. Sem vocabulário. Leve, leve, leve. Sem ondas que me ponham de joelhos, ou grãos de areia que me traguem num ralo. Afogando-me para a respiração fluir sem embaraço. Eu, quase cem por cento água.

Mas o que fazemos com a gente, nos aniquila um pouco por dia. Porque deixamos de correr sem razão, como fazemos quando criança, deixando para trás os medos e as incertezas. E carregamos um peso nos ombros que nos deixa vulneráveis, e presas de todos os demônios, travestidos em olhares. Deixamo-nos abraçar pela maresia corrosiva que só poupa os alicerces em ruínas, porque esses não sustentam mais nada. E o mar teima em sustentar as barcas.

É esse projeto que não finda, porque ainda não se revelou por completo, e se deixa descobrir aos pedaços, como um quebra cabeça de uma história que contém tantas outras que eu preciso aprender a escrever. E ainda restam tantas peças perdidas.


É essa dor pungente que não pára, porque me traz a lucidez que somos marionetes dos tigres que sopram misérias em nossos ouvidos. E obedecemos e executamos as exéquias de nós mesmos, sem que nos seja possível ao menos ensaiá-las.



Pintura: Porto de Ostia durante uma tempestade, Leonardo Coccorante 1680 - 1750 (óleo sobre tela, 1740)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Desconstrução


...me movo dentro dessa casa como se fosse um objeto. Escolho um lugar e fico imóvel por um longo tempo, a espreita de um acontecimento. Nada se mexe, exceto os números que aumentam de minuto em minuto no relógio digital, e minhas pálpebras que insistem em se abrir e fechar, involuntariamente. Espero em pausa. Não faço planos. E o calor aumenta. Meus poros se abrem em busca de refresco, um alívio. É um movimento quase invisível, mas a imobilidade ao redor é tão bruta que consigo percebê-los sôfregos. Em vão. São só suspiros de uma pele cansada e com sede.

Ando lentamente por entre as paredes como quem procura uma sombra. São muros altos aos quais me agarro pegajosa. Mas é meio dia e o telhado está roto. O sol se espalha impiedosamente. Avança de um céu sem nuvens que carcome a minha pele e arranca da minha polpa o sumo rubro vital. Os canos também estão rotos. Os da casa e os meus. Vazam líquidos pelas frestas, pelas brechas. Água, lágrima, urina. Secreções. São resquícios, meus pedaços fluídos. Grava-se em sulcos na minha pele uma geografia enfermiça.

Abandono-me nesse rastejar por um interminável tempo.

Mas o pensamento não cessa. Cozinha o futuro que na pressa devoro cru, e não sacia, apenas aumenta a inquietude. Essa consumição febril que eclode do lado de dentro, enquanto a pérfida paz distende meus músculos faciais numa prostração inerte.


Pintura: Mulher nua encostada, Pablo Picasso 1881 - 1973 (óleo sobre tela, 1960)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Eis o homem


Até que enfim chegaram! A festa já começou faz tempo. É que você sabe como é a mãe, né? Parece noiva se enfeitando pra casamento. Ah, mas tá bonitona, ela. É, uma vez por ano. Rosa, que poderosa você está, sua danada, veio com esse decote só para provocar o cunhado. Malandra. Imagina, que é isso, peguei o primeiro vestido do armário. Me arrumei correndo...mas até que ele está charmoso hoje, dava pra perder meia hora. O que é que tem de bom pra beber aí? Ah, o amigo do Tio Paulo ta fazendo uns drinks vorazes lá na varanda. Vamos sair daqui no grau! Êpa, ouvi alguém aí dizer que tem baladinha? Eu e o Cesinha vamos causar depois que os sinos tocarem, mas você não vai não maninha, só se levar umas amigas. E a Marina, não veio com o Cláudio? Não, graças a Deus. Essa aí nem a mãe deve agüentar. E eu ouvi dizer que eles andaram brigando feio. Ciúmes do Cláudio. Dessa vez deixou a santinha cheia de hematomas. Melhor assim, é bom que fique mesmo longe. A que horas começa o amigo secreto? Pois é, tem que chamar o povo que tá fumando lá fora. Porra, põe uma música mais animada aí. Daqui a pouco todo mundo começa a rezar com esse sonzinho chato. Põe Ivete! Não, que Ivete o quê? Coloca Bezerra da Silva. Ah, agora todo mundo quer ser DJ! Deixa que eu escolho a música. “...é por isso que eu vou apertar, mas não vou acender agora...” Ah moleque, sabe o que é bom, né? Já ta iniciado o filho da Cleide. O amigo secreto é agora. Só falta aquele filho da puta vir me abraçar com um presente na mão. Se não te abraçar agora vai te abraçar à meia noite. Tomara que enfarte antes da hora, só assim para você escapar. Está todo mundo aqui agora. Menos a Marina. Ah, estou falando de gente. Venenoso você, hein! Mas tá faltando a Tia Maria. Ela estava na cozinha até agora. Foi ela que fez todos os pratos e doces. Fez tudo, menos os drinks vorazes. Sério agora, cadê a Tia Maria? Foi lá para o quartinho, eu acho. Parece que foi fazer uma oração. Iiih, que silêncio. Vamos fazer também vai, aí a gente já pode começar a comer. Pai nosso que estás no céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido...
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Pintura: Eis o homem, Michelangelo Merisi Caravaggio 1571 - 1610 (óleo sobre tela, 1605)