
Para dedos não brocham e café com canela.
O fado é verde. Li nas fitas amarradas à mochila encaixada nas costas largas que perambulavam na minha frente. Eram duas fitas. Ou havia mais? Chovia, e a umidade do ar distorcia imagens, multiplicava símbolos, pluralizava os cachos vermelhos e os pelos ruivos cobrindo os braços, minguando na raiz dos dedos. Ali, já dourados.
Segurávamos os mesmos dedos entre as mãos. Aqueles que não hão de brochar. Os dedos colhidos da primeira Safra de palavras plantadas em papel. O preto sobre o branco, sob o nosso olhar.
De onde vem essa gente vermelha? Talvez desaguem nesse planeta vindos do mesmo lugar. Esses homens ruivos, de sorrisos largos. E como água se espalham, fluidos que são. Transitam aqui e ali. E desaparecem, atrás da taça de vinho branco, de um outro sorriso mais perscrutador que eloquente. Tornando-se raros. Etéreos.
Vem daí o meu assombro pelos russos? Eu os leio. Robustos. Como quem teme a morte e quer desvendar o mistério. Espero a mão que me segura a surgir entre uma e outra página para me salvar. Os russos, vermelhos, ruivos, brancos, grandes. Os ruivos.
Mas esse trazia o fado na pele postiça. Verde. O fado é verde? Semeador. O fado verde que trouxe essa nuvem benfazeja. Essa alegria plural. Que indica a existência de mais de um. Do semelhante. Do que também vive a realidade inventada. Invento meu cenário de ruivos fluídos. E depois da passagem dessa gente, já não sou mais quem eu era. Nem meus dedos são iguais. Meu pilar sustentado pelo sonho não teme mais ruir.
A fila anda. Ele se esvai por entre os dedos(!). Agora é a minha vez de ver de perto a dona da história. A criadora da Anna. Da outra. Daquela que ainda vai nascer tremeluzindo nos olhos a alegria de ser.
E não tive coragem de estender meu braço, lhe tocar o ombro branco branco branco, por baixo do céu negro de sua camisa e perguntar: se o fado é verde, quanta canela vai no teu café?
Fotografia: Desenhe com o dedo, Lygia Clark 1920 - 1988 (plástico e água, 1966)









