
Tive que escrever as minhas próprias palavras para entender do que são feitos os autores que eu persigo. Não me refiro a escrever como eles. Não, isso não. Porque eu ainda uso os dedos para isso e desde há muito esses gigantes não escrevem mais com as mãos - alguns nunca o fizeram, já vieram prontos. Refiro-me a tornar público, mesmo que não seja através do papel do livro, as minhas impressões e o meu olhar - para dentro e para o mundo.
Obra do destino ou desatino, o fascínio pelo tom ácido e melancólico sempre me atraiu. Porque dessa minha perspectiva tendenciosa, me parecia muito mais fácil falar da esperança do que da desesperança, da vitória do que do fracasso, e as coisas fáceis nunca me seduziram. Não me seduzem, ainda, porque rasas.
Fui me nutrindo com as palavras dos grandes, daqueles autores que podiam dizer: Eu é! e não Eu sou ou Eu estou, e entendi que eu não sofria de nenhum mal ou tendia a apreciar o bizarro. Porque aquele que fala sobre a ruína ou sobre as fraquezas do que é ser humano, vibra ainda mais sôfrego pela vida na astúcia do negro espanto que seu texto denso e triste provoca no leitor.
O autor se revira no lodo, dele mesmo passa a fazer parte, usa-o como alimento e confundindo seus dedos com as raízes frias e úmidas que carecem do calor reconfortante da superfície, grita estentoricamente por uma lampejo de reação daquele que o lê, daquele leitor que agora é o dono do texto. Não se trata de salvar o leitor, porque a ninguém cabe nem ao menos a própria redenção - já disse isso antes - mas de fazer com que ele sinta o sangue lhe ferver nas veias. Fazer com que o leitor saiba, apenas saiba, ainda que nada faça ou diga palavra sobre a constatação da torpe natureza humana.
Escrever também me deu a medida certa de uma frase muito usada: você é o que escreve e escreve o que é. Tinha a débil idéia de que tudo que aos personagens sucediam, havia antes sido fato concreto na vida do autor. E é mesmo assim, mas há muitas maneiras de se viver uma vida, e muitas vidas dentro de uma existência. Um texto pode ser fruto de um olhar que vê uma história distante pela fresta de uma janela, ou de um ouvido bem atento que captura a conversa de passantes a quem os rostos não foram sequer vistos. O texto pode trazer a imagem mais abjeta ao autor, que a exibe sem pudor para clamar exatamente pelo seu próprio avesso.
É como ver imagens pictóricas. Quanto mais distante estamos do quadro, mais precisos são os seus contornos. E ainda que não possamos tocar a dura tinta seca que cobre a tela, não quer dizer que não a vimos, que não a façamos viva dentro de nossos corações.
Eu vi um homem que dormia pouco, trabalhava muito e comia mal. Esse homem tinha os olhos embotados de renúncia e cansaço, mas por trás das pálidas retinas, pulsava uma furiosa sede de futuro. E esse homem está na minha frente. Esse homem é o meu pai, é o meu amigo, meu colega de trabalho, é o meu professor. Esse homem sou EU.
Provar minha escrita me faz um bem, e faz mais bem a quem eu leio, agora, sem equivocados julgamentos.
Pintura: Leitor Sujeitado, René Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1928)
Obra do destino ou desatino, o fascínio pelo tom ácido e melancólico sempre me atraiu. Porque dessa minha perspectiva tendenciosa, me parecia muito mais fácil falar da esperança do que da desesperança, da vitória do que do fracasso, e as coisas fáceis nunca me seduziram. Não me seduzem, ainda, porque rasas.
Fui me nutrindo com as palavras dos grandes, daqueles autores que podiam dizer: Eu é! e não Eu sou ou Eu estou, e entendi que eu não sofria de nenhum mal ou tendia a apreciar o bizarro. Porque aquele que fala sobre a ruína ou sobre as fraquezas do que é ser humano, vibra ainda mais sôfrego pela vida na astúcia do negro espanto que seu texto denso e triste provoca no leitor.
O autor se revira no lodo, dele mesmo passa a fazer parte, usa-o como alimento e confundindo seus dedos com as raízes frias e úmidas que carecem do calor reconfortante da superfície, grita estentoricamente por uma lampejo de reação daquele que o lê, daquele leitor que agora é o dono do texto. Não se trata de salvar o leitor, porque a ninguém cabe nem ao menos a própria redenção - já disse isso antes - mas de fazer com que ele sinta o sangue lhe ferver nas veias. Fazer com que o leitor saiba, apenas saiba, ainda que nada faça ou diga palavra sobre a constatação da torpe natureza humana.
Escrever também me deu a medida certa de uma frase muito usada: você é o que escreve e escreve o que é. Tinha a débil idéia de que tudo que aos personagens sucediam, havia antes sido fato concreto na vida do autor. E é mesmo assim, mas há muitas maneiras de se viver uma vida, e muitas vidas dentro de uma existência. Um texto pode ser fruto de um olhar que vê uma história distante pela fresta de uma janela, ou de um ouvido bem atento que captura a conversa de passantes a quem os rostos não foram sequer vistos. O texto pode trazer a imagem mais abjeta ao autor, que a exibe sem pudor para clamar exatamente pelo seu próprio avesso.
É como ver imagens pictóricas. Quanto mais distante estamos do quadro, mais precisos são os seus contornos. E ainda que não possamos tocar a dura tinta seca que cobre a tela, não quer dizer que não a vimos, que não a façamos viva dentro de nossos corações.
Eu vi um homem que dormia pouco, trabalhava muito e comia mal. Esse homem tinha os olhos embotados de renúncia e cansaço, mas por trás das pálidas retinas, pulsava uma furiosa sede de futuro. E esse homem está na minha frente. Esse homem é o meu pai, é o meu amigo, meu colega de trabalho, é o meu professor. Esse homem sou EU.
Provar minha escrita me faz um bem, e faz mais bem a quem eu leio, agora, sem equivocados julgamentos.
Pintura: Leitor Sujeitado, René Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1928)
9 comentários:
Oi querida!
Texto muito interessante como sempre.
Sobre seu comentário lá no blog, não tenho a fonte da imagem.Copiei do Google e infelizmente não tinha a fonte.
Bjs.
Olá Ana. Seu recado ao meu espaço: 'Parabéns Brenda, é um lindo texto, cheio de belas imagens'. Creio, que, o recado era para Brenda. Estou deletando do meu espaço de forma que vá para a pessoa em questão.
Chamo: Priscila Cáliga, de qualquer forma obrigada pela visita em erro. [rs] A propósito, seu espaço é maravilhoso.
Abraços e paz
Priscila Cáliga
Querida! Amo tua escrita. E dentro dessa perspectiva de envolver o leitor e fazê-lo sentir o sangue correndo nas veias, destaco o texto em que narras o dia em que teu pai te leva para conhecer, ainda criança, tua escritora preferida. Aquilo mexeu comigo de um jeito... significou tanto. Há textos que marcam. Penso eu, são eles a maior tradução de nossa essência. E do que nos vincula ao outro, do que nos faz iguais. Grande beijo!
Querida Ana,
Siempre he pensado que a través de la literatura, utilizando la imaginación como herramienta, se podía explicar la concepción de todo un universo dándole una versión más amable, pero me equivocaba. El mundo, tiene una expresión poética y literaria de por sí, aunque está plagado de incertidumbre, melancolía y dasazón. Querida Bucciarelli, yo estaba errada, pero la esperanza nunca yerra.
Bicos!!!
Minha querida,
qualquer maneira de escrita vale à pena e você o faz muito bem.
Li sim a carta, gostei muito, não poderia deixar de ler.
Volto a blogar. Abraços.
Kk, escreves lindamente! Densa, deep, e entregue! Admiro tuas palavras, alinhadas assim como so voce poderia!
Beijos,
Elis Barbosa
Ana;
Como você necessitasse justificar tua escrita.Não, não necessitas,ela vive em você, nutre e é nutrida do seu talento e entrega para nós profundos momentos de reflexão, um pouco de nostalgia,e ainda mais do que tudo uma sede incrível do futuro ... me faz querer ser uma pessoa melhor.
Sérgio
Olá, Karina.
Encontrei o seu blog por acaso e adorei os seus textos! Este, muito interessante, porque mostra a escritora madura que vc é, a consciência do ser autor e do que provoca a leitura no leitor.
Parabéns! Provar da sua escrita tb me fez muito bem.
Voltarei mais vezes.
Um abraço,
Patrícia Lara
Karina. Obrigada por suas belas palavras. No decorrer dos dias estarei mergulhando em seu universo literário que de instância revela ao meu âmago muita qualidade em escrita.
Abraços e paz
Priscila Cáliga
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