segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Condutor ausente


Agora não me lembro da voz dele. Ele fala pouco. Ele quase não fala. Mas conheço todos os traços do seu rosto, que pouco muda de expressão. Ele é jovem. Mais jovem do que eu. Tudo o que ele tem feito é me ouvir. E me observar.

Quando penso: “sempre falamos em máscaras”, percebo que estou caindo no jogo que ele me convida a jogar, já que “nós” não falamos de nada. Só eu falo. Eu monopolizo os minutos dos nossos encontros, porque esse intervalo de tempo é meu.


Tentei saber mais dele através do nome, já que o nome das pessoas antecipa tanto delas para o outro. Mas o nome dele não me antecipou nada. Nenhuma descendência, ascendência, linhagem. Fiz o mesmo que ele: observei. Acendi o abajur sobre o mistério, e mesmo assim não consigo enxergar os contornos da geografia desse homem. Se fosse uma pintura, seria Magritte, de rosto escondido e mãos baixas. Se fosse uma música seria Mozart, complexa na sua simplicidade. Se fosse um escritor, seria um pouco de cada, no que lhes cabe de enigma.

A voz dele é o que mais me escapa. E então eu faço perguntas sobre a sua vida, seus usos e desusos. Ele ri. E não responde. Mas essa risada é só um movimento sem som, de maneira que eu ainda não sei como ele ri. Rir que é coisa tão humana, de quem tem sangue nas veias. Ele ri como o gato de Alice. E eu ainda não sei como ele ri.

Esse homem sem voz e sem risada não se ofende nunca. E não se surpreende, com nada do que eu falo ou calo. Ele é tão estável como um trem que segue seu curso em linha reta, na mesma velocidade, embalando no ta-ta-ta dos trilhos de aço todos os seus passageiros de olhares distraídos com a paisagem do outro lado da janela. Esse homem é o condutor do meu trem. O condutor que mesmo depois do nosso encontro, continua acelerando a marcha do meu pensamento, que não cessa, que não para. Porque eu continuo lhe dizendo coisas, contando segredos. E quando nos encontramos de novo, não me lembro bem que parte da confissão fiz à ele e que parte fiz à mim mesma, enquanto além da voz, seu corpo também não estava presente.

Já testei esse homem algumas vezes. Só serviu para sentir vergonha. Fiquei desconcertada, porque me parece que depois disso, ele consegue não só ver além das minhas múltiplas máscaras, mas também o que está gravado na minha alma. O que será uma cicatriz se um dia a chaga aberta secar.
Ele é o condutor ausente que me leva para um destino desconhecido chamado futuro. Uma cidade sem habitantes, ainda, impregnada de espera. Ele me conduz silenciosamente nesse caminho enquanto fico a lembrar da sua voz.


Pintura: O terapeuta, René Magritte 1898 - 1967 (guache sobre papel, 1941)
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