quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Noturno


É durante a madrugada sempre fria de São Paulo que me aconchego nos braços das palavras. Para seguir esse curso que nunca sei como vai começar e nem mesmo sei se chega a terminar, prefiro o silêncio. Mas silêncio em São Paulo é animal em extinção. Somente em alguns recantos é possível encontrá-lo preservado da peçonha humana. E no meu canto, esse bicho nunca apareceu de fato. Quando o silêncio aparece no exterior, no meu íntimo há ecos de gritos represados. Não, silêncio mesmo, eu nunca ouvi. O silêncio é o mamute de uma outra era, que eu nem sei se existiu.

Sem oferecer resistência deixo o lugar de observadora, e me junto às figuras do drama. Misturo-me às moças de andar apressado em seus sapatos de salto. Meninos que esperam a cortina da noite para fumar em paz seus cigarros, cachimbos. Casais em busca de um ninho, às vezes, só um colchão. Meus passos se perdem em direções turvas, nas grandes avenidas, nos becos sem saída, governados pelo véu soturno da madrugada. O caos organizado da metrópole, que se estabelece com a ausência da luz. 


E me acompanham motoristas em seus carros, vagando pelas ruas em busca de distração. Ônibus que levam trabalhadores da noite de um bairro a outro, porque a cidade não dorme. Sirenes apressadas cruzando faróis vermelhos. Pedestres em alerta. Bocas sôfregas por mais um trago. A cidade é um insone de vistas cansadas, pupilas dilatadas e vasinhos expandidos tingindo de vermelho o branco dos olhos. Por isso a cidade goteja sempre. A cidade da garoa chora porque não consegue dormir.

Eu também não consigo dormir. Meus olhos ardem, e escrevo. Conto histórias, nem sempre minhas, mas sempre autobiográficas. Eu replico feito imagem multiplicada em espelhos, as angústias de quem vive no asfalto, de quem procura um alívio feito cão vira-lata à procura de sobras nos sacos pretos das esquinas. E são muitos, os cães, e os restos. A cidade é abundante em tudo aquilo que produz, especialmente na falta, no vazio.


Esse vácuo que torna quem pisa o chão de asfalto antes de tudo um buscador. Eu busco. Não sei do que é feita a matéria daquilo que busco, mas antes de nascer eu já buscava. E não achava. Eu que nasci na Avenida Paulista, dando-me à luz na escuridão de mais uma madrugada, busco com o olhar preso no horizonte desigual das antenas de TV. Meu canal predileto, o da espera.


Para escrever sou filha da negra noite. Do silêncio e dos gritos que ela guarda. Da sua opacidade macia, que não agride as retinas de quem por ela se arrisca a caminhar. Eu sou filha da metrópole. Urbana. São Paulo que amaldiçôo e que anseio. Meus pássaros são Boeings de vôos rasantes. E tudo isso é meu.


Pintura: Terraço do café à noite, Vincent Van Gogh 1853 - 1890 (óleo sobre tela, 1888)
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