
Um ponto escuro refletido no espelho. Foi recuando devagar, para ver se o cravo incrustado no queixo podia ser visto de longe, que reparou mais detidamente em seu rosto. Costumava tirar os cravos na adolescência, espremendo com os dois dedos indicadores os incômodos hospedeiros não convidados. Mas aquele cravo, o cravo de hoje, era um cravo doído, que a fez lembrar de quando era jovem. De quando havia firmeza em abundância na pele, nos seios, nas coxas, agora sempre cobertas, com textura de papel amassado.
Foi isso. A vida foi um rascunho desprezado num cesto de lixo. A pele era agora uma roupa frouxa, guardando um vazio que se esvaía a cada instante. A vida, que veloz escapava em fuga. Ela podia sentir a sua biografia minguando. Rápido. Tão rápido quanto a Terra gira em torno do Sol, ainda que não fiquemos tontos, e só percebamos esse movimento quando assistimos a luz do grande astro dissipar ao poente. A ausência da luz, que faz unir a sombra e a treva.
Recostou o corpo no espaldar da cadeira, de carvalho, tão antiga quanto ela, e buscou na memória o ponto exato em que começou a envelhecer. Como se envelhecer fosse o começo de qualquer coisa, e não o fim. E com espanto ela soube. Foi quando sentiu o medo pela primeira vez. Não o medo do escuro. Ou o medo de se perder da mão do pai no meio da multidão. Foi quando ela experimentou pela primeira vez o medo do abandono da alma. Da ausência de um deus - qualquer que fosse. O medo da falta de um governo para os seus dias de futuro. Medo. Eram muitos medos. E os piores medos são aqueles que não nos fazem chorar. Medos que não passam. Que crescem com os anos e se nos acumulam nas rugas em volta dos olhos, nos vincos em torno dos lábios. Secos. Nas mãos, que incertas, passam a tremer. As dela tremiam tanto, que nem os cravos conseguia mais expulsar do próprio corpo.
Pintura: Retrato de uma mulher velha, Balthasar Denner 1685 - 1749 (óleo sobre tela, 1720)
Foi isso. A vida foi um rascunho desprezado num cesto de lixo. A pele era agora uma roupa frouxa, guardando um vazio que se esvaía a cada instante. A vida, que veloz escapava em fuga. Ela podia sentir a sua biografia minguando. Rápido. Tão rápido quanto a Terra gira em torno do Sol, ainda que não fiquemos tontos, e só percebamos esse movimento quando assistimos a luz do grande astro dissipar ao poente. A ausência da luz, que faz unir a sombra e a treva.
Recostou o corpo no espaldar da cadeira, de carvalho, tão antiga quanto ela, e buscou na memória o ponto exato em que começou a envelhecer. Como se envelhecer fosse o começo de qualquer coisa, e não o fim. E com espanto ela soube. Foi quando sentiu o medo pela primeira vez. Não o medo do escuro. Ou o medo de se perder da mão do pai no meio da multidão. Foi quando ela experimentou pela primeira vez o medo do abandono da alma. Da ausência de um deus - qualquer que fosse. O medo da falta de um governo para os seus dias de futuro. Medo. Eram muitos medos. E os piores medos são aqueles que não nos fazem chorar. Medos que não passam. Que crescem com os anos e se nos acumulam nas rugas em volta dos olhos, nos vincos em torno dos lábios. Secos. Nas mãos, que incertas, passam a tremer. As dela tremiam tanto, que nem os cravos conseguia mais expulsar do próprio corpo.
Pintura: Retrato de uma mulher velha, Balthasar Denner 1685 - 1749 (óleo sobre tela, 1720)








O oráculo volta a arregalar seu olho revelador, em cuja íris nos revela o que somos: matéria de passar.
ResponderExcluirQue saudade imensa eu estava de vir consultar o oráculo e encontrar a menina de seus olhos.
Abraço de sol poente,
- Betinha
Para uns o saldo é positivo!
ResponderExcluirPara outros já está a menos há muito tempo, outros talvez por esses medos, nunca souberam gastar o tempo...e resta só o medo trémulo dos dias...
Bjs dos Alpes
Seus textos são lindos.
ResponderExcluirMas... Quem se poderá esquecer que desde o momnto que fomos concebidos, começamos a eenvelhecer? É a lei da vida. Que seríamos nós se assim não acontecesse?
ResponderExcluirbem vinda.
ResponderExcluirsenti saudades.
Os teus textos são um doce fascinio!...
ResponderExcluirB.e.i.j.o.s.
AL
Ana, mais um momento de reflexão que me proporcionaste.
ResponderExcluirUm beijo,
Jana
Oi amiga!
ResponderExcluirTem um selo pra você no meu blog!
Abraço.
Até nossa própria imagem cansa. Reflexo da insatisfação de cada dia. Quando deixaremos esse hábito terrível e ilusório?
ResponderExcluirCreio que esse saldo, esse tal saldo assustador é o regalo da vida que de presente se faz ausente no monitor marcante, onde vemos o barquinho da veia pulsante sorrir e fluir, passar, nos deixar e sumir....
ResponderExcluirassim é a vida fluídez de rascunhos eternos em que até os bons momentos se vão como pedidas exatas de um tempo insano, cheio de rasuras e alentos... e assim me despeço de sua bela escrita e ainda tendo um alento... é na fluidez de meus dias, rascunhos de momento, que passo por aqui e me dou por feliz ao trocarmos experiências e ao ler o que ainda agora li.
Para transmitir o que se quer dizer, a mensagem, o texto precisa de qualidades tais como clareza, argumentação bem-definida, fatos ou dados ilustrativos do assunto e novas idéias, novas opiniões sobre o tema. Tudo com clareza gramatical e estilo.
ResponderExcluirAi eu acrescentaria tb:
tem que saber escrever igual a Ana Karina Bucciarelli.
bjs.
Você escreve em sânscrito.
ResponderExcluirSuas palavras são uma espécie de mantra que nos convida a escalar a montanha espiritual até o cume que a transborda. Nunca consegui sair daqui sem contemplar o horror do seu silêncio e nem das lágrimas negras que dançam na luz do teu rosto, numa tentativa insuperável de dissolver as trevas. Há quem prefira acreditar que existem coisas que só podem ser vistas nelas.
Entro na varanda dos teus olhos.
Você me convida a ser negra.
Anoiteço então.
Não como uma maldição, mas como uma bênção.
A gente se vê no ar.
Com amor, Pipa.
Das palavras da Pipa faço as minhas.
ResponderExcluirSão cravos escravos que nos aprisionam.
Beijos noturnos.
Belo texto sobre envelhecimento, convivo diariamente com situações que me intrigam a respeito da condição humana nesta fase da vida.
ResponderExcluirabraços,
Paulo.
Ana,
ResponderExcluirMais uma vez, deixo uma palavra de felicitação. Escreve muito bem.
O tema desta texto, esta linha de reflexão, também me ocupa muitas vezes a mente. Aliás, gostava que lesse o meu último post.
Um beijinho. É um gosto lê-la.
Ana, minha querida, que saudade do seu lirismo em prosa, desse seu olhar único sobre as coisas do mundo... vc é maravilhosa!
ResponderExcluirTem um presentinho pra vc no meu blogue, tá? Obrigada por fazer dos meus dias, dias mais felizes e coloridos com a sua poesia.
Beijo, Flor. E não some mais não, viu? Senti muito a sua falta. :)
olá
ResponderExcluirmorrer ou nao morrer, eis a questão. e mais, ainda: quando morrer?
abraço
césar
Envelhecer, morrer, mas com certeza ficar na história de alguém. É lei da vida. Pior seria morrer e e não ter ninguém para se lembrar de nós.
ResponderExcluirSerá a decadência física tão importante que delimite todo o pensamento?
ResponderExcluirSerá que que não há vida para lá dos ícones publicitários?
Muito mal seria se a sabedoria ficasse circunscrita a por.menores...
é sempre um enorme prazer ler o que escreve, Ana!
Beijo :)
Não lamento a velhice chegando lenta e sem parar um só instante deixando para a saudade a mocidade de emoção. Sei que morrer é o fim de todas as vidas presente nesse planeta cheio de água, água essa que evaporando do nosso corpo vai deixando nossa pele seca como folha caída de uma arvore em muda. Assim é a vida que começa sem sentido e termina com o fim dos nossos sentidos.
ResponderExcluirAmo seus textos!
Há cravos da alma que nos conservam sempre jovens...mas para os cravos do rosto só há um jeito:jogar os espelhos fora!!!
ResponderExcluirUm beijo e amei o texto,,,me vi te lendo!!!
Sonia Regina.
Bem devemos viver intensamente, gastar ou aproveitar todos os minutos como se fossem os últimos, pois o tempo é implacável e, depois que se vai não mais adianta sofre por ele pois, cada minuto que passa é um milagre que não se repete jamais.
ResponderExcluirAbraços forte
pior que envelhecer é não saber de onde se veio, para onde se vai, ou quando...e como...
ResponderExcluirComo iremos?
Seu texto me comove, Ana.
Ana,
ResponderExcluirVim reler-te, rever-te e deixar um beijo!
AL
Morrem veracidades ao longo do tempo que trás esta amargura da velhice, da putrefação, da invalidez diante a eternidade, da falta de tempo que se torna constante ao passar do dia.
ResponderExcluirChega a finco no coração a vontade momentânea de ser dono de si, do tempo novo que vira velho, basta saber: Em que tempo gostaria de parar para ser eterno?
Basta realizar outrora o que hoje não é feito, à crença no depois que traz a paz e a nostalgia da poesia na alma.
Tu texto es muy agradable.
ResponderExcluirAna,que rica reflexão fiz ao ler aqui.Ah...o tempo dispõe de nós como lhe convêm.A nós simples mortais resta-nos aproveitarmos dele o máximo que possamos.Um grande abraço!
ResponderExcluirNão sabe como espero ansiosa seus textos e ei-lo, Maravilhosso!!! Volta a dizer, quando resolver juntar seus textos eu quero ser dona de um exemplar. Bjus.
ResponderExcluirElaine
Se os piores medos são aqueles que não nos fazem chorar, então já estou ficando velha há muito! (ou estamos?)
ResponderExcluirbeijos!
Vim conhecer este blog por indicação de um amigo. E mesmo com a recomendação dele, e os elogios ao seu trabalho, confesso que me surpreendi. É muito, mas muito acima do lugar comum mesmo.
ResponderExcluirParabéns pelos seus textos. Falar que são excelentes? Vão além disso: são escritos de uma Escritora.
Abraços
Uauuu Amei te Ler,
ResponderExcluirVc é Simplesmente
M.A.R.A.V.I.L.H.O.S.A
Bjos,
Renata Mangeon
Ana, o envelhecer é isso e vai além, muito além...
ResponderExcluirBelo texto. Beijos.