
Fazes-me bem quando escuto a tua voz dizendo-me”para mim”, “meu” e outras palavras que usamos para nos referirmos às coisas que se nos pertencem. Só quem caminha no deserto, à mercê dos escorpiões, nu de pertencimento, sabe a importância de topar uma criança a pedir-nos desenhos de bichos.
Talvez os bichos que quisestes em teu planeta, não eram de verdade, mas os desenhos que fiz com a minha caneta de pouca tinta, serviram para validar o árido e quente chão que piso. Talvez com esses desenhos, querias abrandar os galopes aflitos dos meus corcéis selvagens, que mesmo ocultos à visão, fazem trepidar tudo que os circundam.
Ainda diante de tantos “talvez“, em um momento eu soube, pela inflexão da tua voz, que mesmo não conhecendo o país das tuas palavras, tu querias me oferecer algo desse território. Querias mostrar-me o que te ia no peito, em contraponto aos estampidos que se podiam ouvir de longe explodindo dentro de mim. Além da voz, avançastes o corpo, deixando nu o encosto da cadeira, mais de uma vez. Mais de uma vez correu-lhe sangue nas veias?
Essa coisa que me oferecestes foi para mim o teu ser “bio”, de que te falei no início dos nossos encontros, quando eu, ainda tola tentava escapar ao cuidado, ao tratamento a que vagarosamente vens me submetendo. Naquele tempo esse cuidado não era para mim mais do que uma rede na qual tu querias que eu me jogasse sem reservas, como mosca distraída. As reservas eu ainda tenho. Não contigo, mas comigo mesma, e foi tu que me mostrastes esse pedaço meu. Duro. Forjando o ferro na sua própria matéria. Já que me fizestes essa cortesia, mostra-me também como abrir os braços para receber o mundo, para acolher as agruras sem espantos, para me servir das delícias sem os vícios e para sobreviver às tristezas sem as desesperanças. Para saborear os amores sem os amargos desamores, e as conseqüentes perdas. Porque ainda sou muito pequena diante da grandeza da vida, e minhas pernas estão fracas, muito fracas ainda. Porque sou órfã do meu cão. Sobretudo, porque agora eu preciso de um amigo, embora saiba que isso tu nunca o serás.
E no refrão da minha canção, verto lágrimas que são ungüentos para os dias ferozes. Penso que assim, expurgo os fantasmas que ficam a zumbir em meus ouvidos todas as noites. Fazes-me bem quando provocas-me na tentativa de libertar os meus cavalos bravios. Fazes-me bem mesmo quando me fazes chorar.
Pintura: O sabor das lágrimas, René Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1948)
Talvez os bichos que quisestes em teu planeta, não eram de verdade, mas os desenhos que fiz com a minha caneta de pouca tinta, serviram para validar o árido e quente chão que piso. Talvez com esses desenhos, querias abrandar os galopes aflitos dos meus corcéis selvagens, que mesmo ocultos à visão, fazem trepidar tudo que os circundam.
Ainda diante de tantos “talvez“, em um momento eu soube, pela inflexão da tua voz, que mesmo não conhecendo o país das tuas palavras, tu querias me oferecer algo desse território. Querias mostrar-me o que te ia no peito, em contraponto aos estampidos que se podiam ouvir de longe explodindo dentro de mim. Além da voz, avançastes o corpo, deixando nu o encosto da cadeira, mais de uma vez. Mais de uma vez correu-lhe sangue nas veias?
Essa coisa que me oferecestes foi para mim o teu ser “bio”, de que te falei no início dos nossos encontros, quando eu, ainda tola tentava escapar ao cuidado, ao tratamento a que vagarosamente vens me submetendo. Naquele tempo esse cuidado não era para mim mais do que uma rede na qual tu querias que eu me jogasse sem reservas, como mosca distraída. As reservas eu ainda tenho. Não contigo, mas comigo mesma, e foi tu que me mostrastes esse pedaço meu. Duro. Forjando o ferro na sua própria matéria. Já que me fizestes essa cortesia, mostra-me também como abrir os braços para receber o mundo, para acolher as agruras sem espantos, para me servir das delícias sem os vícios e para sobreviver às tristezas sem as desesperanças. Para saborear os amores sem os amargos desamores, e as conseqüentes perdas. Porque ainda sou muito pequena diante da grandeza da vida, e minhas pernas estão fracas, muito fracas ainda. Porque sou órfã do meu cão. Sobretudo, porque agora eu preciso de um amigo, embora saiba que isso tu nunca o serás.
E no refrão da minha canção, verto lágrimas que são ungüentos para os dias ferozes. Penso que assim, expurgo os fantasmas que ficam a zumbir em meus ouvidos todas as noites. Fazes-me bem quando provocas-me na tentativa de libertar os meus cavalos bravios. Fazes-me bem mesmo quando me fazes chorar.
Pintura: O sabor das lágrimas, René Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1948)








faz-me bem ler tanto de mim escrito por outro alguém.
ResponderExcluire em dia tão propício :)
estou grata.
Sabes-me bem:)
ResponderExcluircom os devidos créditos, e espero que não se importe, publiquei seu texto aqui.
ResponderExcluirabraços
Belo texto, estive a esperar, confesso!
ResponderExcluirabraços,
Paulo.
Fazes-me falta quando passo algum tempo sem ler os teus textos. Tua escrita sempre renova em mim o deleite proporcionado pela leitura.
ResponderExcluirBeijo carinhoso
Fazes-me bem tudo que sempre encontro por aqui.Que doce texto rustido de amor e compaixão,sabedoria escondida em cada palavra.Amei seu texto.Um grande abraço!
ResponderExcluirAna gostaria de enviar meus livros para você
ResponderExcluirse puder me enviar seu endereço postal?
meu e-mails são solivan90@hotmail.com e
solivan20@gmail.com.
Uma florzinha desenhada com caneta
para você
Construção bonita esse texto Kk, você escolhe as palavras com precisão de corte, excelente ;O)
ResponderExcluirBeijos,
Elis
Ana gostei muito do que escreves, voltarei sempre.
ResponderExcluirBjs.
Texto fabuloso, incrível e delicioso de ler.
ResponderExcluirAdoro estar aqui.
Bjitos mil
Então. O que vem de sua escrita, faz tanta coisa pra tanta gente.
ResponderExcluirEntão fez-se a luz.
Ana, minha querida amiga, que saudade dessas maravilhas com que nos presenteia sempre.
ResponderExcluirVc escreve de uma maneira tão densa e ao mesmo tempo tão profundamente bela e sensível... é maravilhoso poder ler-te. É um dos grandes privilégios que eu tenho aqui na blogosfera.
Quando leio seus textos, poeticamente construídos, aprendo muito... muito mesmo.
Um grande beijo nesse doce coração! :)
Beautiful
ResponderExcluirEspléndida forma de contar esa tristeza que se siente al haber dado tanto y haberse quedado atrapado como mosca en una red y angostarse en la tristeza que ya no te deja volver a ser pequeña, volver a abrir los brazos. Sencillamente, volver. Y ese dolor, que se agrupa en la sien y que te hace bien incluso aunque estés llorando. Duro pero espléndidamente bello. Un abrazo en Índigo.
ResponderExcluirOlá adorei teu blog, lindo mesmo. Parabéns. Fique a vontade para fazer uma visitinha ao nosso e seja mais um membro. Você é nosso convidado especial. http://poetarenatodouglas.blogspot.com/.
ResponderExcluirUm grande abraço!
Que tenhas as estrelas a ecoarem o riso dos que te cativam. Constela-te deles!
ResponderExcluirQue lindo, que lindo, que lindo.
ResponderExcluirGostaria de dizer mais, mas só isso me vem à cabeça.
Um beijo!
eu hoje estive aqui e gostei muito do seu texto, enfim.
ResponderExcluirabçs
Gustavo
Pequeno Príncipe passou pelos teus sonho também?
ResponderExcluirAna,
ResponderExcluirLi e reli, na tentativa de lhe captar o sentido Apreendi o sentido a espaços, na humildade do que sou e sei, mas a beleza que se patenteia em cada palavra, essa eu vi, dessa tenho a certeza.
Um beijinho
belíssimo, delicado, intenso. saudade.
ResponderExcluirFez-me bem estar aqui...
ResponderExcluirEscrita dura e profunda.
ResponderExcluirMuito bom ler-te:)
"Porque ainda sou muito pequena diante da grandeza da vida"
ResponderExcluirCurti!
Menina... Como vc escreve!
ResponderExcluirÉ muito pequena diante da grandeza da vida?
E eu sou " muito pequena" diante de sua escrita.
Parabéns!
Obrigada pela visita na Maraláxia.
Fiquei muito feliz.
Com carinho
Fátima
adorei.
ResponderExcluiradorável...
Roberta tinha razão:
ResponderExcluirAna Karina é uma sedutora.
Muy bello blog y muy bellas palabras.
ResponderExcluirQuerida Ana,
ResponderExcluirTeu escrito emocionou a minha alma.
É profundo e revelador. Bravo!
Seu blog é realmente excelente: parabéns pela criatividade... to seguindo a partir de agora!! Abcs!!
ResponderExcluirProfundo, sedutor, cheio de lindas metáforas reveladoras.
ResponderExcluirbelíssimo texto!
ResponderExcluirbeijo
Ola ja ouviu o Nana Nene sombriu!!!
ResponderExcluirHá pessoas com a alma em putrefação que amam essa canção!!!! Fale alguma coisa sobre isso no seu blog!! Nana nene que o titio vem cuida
Mamãe foi pra roça
Papai não foi trabalha...
Garanto que tera muita repercução!!!
Cara Ana Karina, vc foi indicada pelo Luiz Neves, para uma entrevista no meu blog, chamado
ResponderExcluirwww.mundo-doscomentarios.blogspot.com e gostaria de saber se vc estaria interessada em participar, qualquer duvida va no marcador teia de blog e veja como funciona.Grato Adiministrador.
fez-me bem ler seu blog... tão forte, intenso... adorei esse texto, em especial, algo como alguém já disse: por que não escrevi isso antes? sigo-a com prazer. tenho um outro blog, passe lá para conhecer: http://isabelle-obeijodaborboleta.blogspot.com/
ResponderExcluirOla, eu vi seu comentarios e pode me mandar no e-mail gugapes@gmail.com
ResponderExcluirMe desculpe em uma coisa, mas vc ja respondeu rsrsrs?? eu nao entendi.Grato Adiministrador
P.S OBRIGADO POR ME SEGUIR VOU TE SEGUIR TBM PARA MELHOR COMUNICAÇAO E CONFRATERNIZAR ENTRE BLOGS
A forma singela e simples, aliada a uma facilidade de combinar as palavras faz de teu texto uma lindeza. Gostei muito de passar por aqui e virei outras vezes.
ResponderExcluirFique se quiser me fazer uma visita: www.sil-memoriasreinventadas.blogspot.com
Abraços,
Que maravilhoso texto. Tenho um faro para textos verdadeiros, porque assim acho que eles devam ser...vindos do amago.
ResponderExcluirSenti isso nesse texto. Gostei muito. Muito mesmo!
Beijos
Mary
Extramente belo.
ResponderExcluir=)
A gente sempre espera um afago em meio aos espinhos, né mesmo?
Um beijo =*
Ana,
ResponderExcluirgostaria de pedir sua autorização para postar uns fragmentos seus no meu blog.
Agradeço desde já,
abraços!
Ana,
ResponderExcluireu que agradeço :)
Obrigada por me responder.
Uma boa noite e abraços para você,
Jenifer
encantador sua sensibilidade.
ResponderExcluirDE MUITO bOM GOSTO SEU ESPAÇO
parabéns..
http://manunatureza.blogspot.com/
Fazer o bem é olhar para dentro de si e encontrar muitas coisas boas. E ver que o próximo também tem a mesma caraterísticas.
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