
E eu ouvia o barulho da roda do carro, rasgando a avenida. Eu também ouvia a chuva caindo insistente no vidro dianteiro, e sem tempo de escorrer suas gostas, ser espancada pelo parabrisa. Era como se o golpe fosse desferido na minha têmpora direita. Depois na esquerda. Na direita. Na esquerda. Direita. Esquerda. Quem batia era sempre o seu silêncio. Compassado. E todo o ruído exterior - porque nem nas trocas de marcha você ruía - era suprimido pelo seu mutismo hostil.
O caminho era longo. Era o caminho de volta, que sempre nos imprime um encurtamento de distâncias. Mas aquela rota ia longe, distante do lugar que nos aconchega quando retornamos. A casa para a qual regressávamos não acolhia.
Eu lembro de como você me segurava no colo. No início. Eu, parte criança. Órfã. Parte mulher. Prometida. Eu regresso na nossa história. Regresso? Não! Antes eu regrido, eu me aflijo, eu me agrido. E não importa em que ponto eu pare de lembrar, aquele corpo estendido na avenida, embrulhado num saco branco, quando eu tinha a idade banguela, continua lá. Foi o corpo que marcou o asfalto, e não o avesso. A chuva que caía naquela noite, ainda é a mesma que cai agora, e não lava nada. Não leva nada embora.
A chuva parou e você continua quieto. Você não diz nada. Você não faz curvas. Tem o olhar embotado. Tenho medo de um acidente. De um sinal vermelho que te passe em branco. Tenho medo, e por isso faço como você: olho para frente. Mas meu olhar capta tudo que nos é periférico. Os meus olhos registram a rua e seu movimento. Os meus ouvidos também estão atentos, e você continua calado.
Os meus ouvidos escutam um tic tac. Tic tac. Tic tac. Voltou a pingar. O tic tac é do parabrisa. O parabrisa volta a atingir minhas têmporas. Descortina a minha pele. Mas há um outro tic tac. E há um sinal vermelho que você vê. Ponto morto. Espera. A chuva para. O tic tac não. O parabrisa para. O tic tac não. Esse é diferente. Olho em volta. Há um homem que anda olhando para cima. Que anda sorrindo para o nada. Esse homem tem uma bengala. Ele a empenha com cuidado. Primeiro para a direita. Depois para a esquerda. Para a direita. Para a esquerda. Direita. Esquerda. O cego avança. E continuamos parados, por ruirmos nós. Esperando o sinal abrir.
Pintura: O desjejum do cego, Pablo Picasso 1881 - 1973 (óleo sobre tela, 1903)








Texto denso e pura beleza. Adorei.
ResponderExcluirUm grande bj
Tu caprichou né! Aparece mais pra nos banhar com seu talento... bj
ResponderExcluirIntenso, um pouco sombrio talvez mais muito belo. A impaciência que transcorre em certas passagens deste texto é belíssima.
ResponderExcluirMinha querida
ResponderExcluirComo sempre um texto cheio de alma...por vezes o sil~encio fere mais qque mil palavras ditas.
Adorei e tinha saudades de passar aqui
Deixo um beijinho
Sonhadora
O silêncio é a ferrugem da alma. E hesito em tocá-lo com os dedos,porque em mim, tudo que cala fundo, oxida. E assisto, lenta, essa descontinuidade das retinas. Mas existe alguma coisa por trás dessas linhas que não posso decifrar e isso me agride. Porque sou mau leitora. Porque atrás desse ponto de obscuração visual, eu vejo luz, gente. Gente que sente, chora, ama. E vejo, sobretudo, o tic tac ensurdecedor desse teu coração que não bate, te espanca.
ResponderExcluirObrigada pelo retorno Ana. É lá que eu exponho todo meu amor pela arte, diferente do amor pela escrita do The Black Element `.^
ResponderExcluirBoa semana e escreva MUITOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
thebelement.blogspot.com
Se eu lhe dissesse que é minha a fotografia, mas que a alma que a habita é de uma estranha, você acreditaria?
ResponderExcluirGosto da ideia de arder nas chamas provocadas pela combustão de seus verbos. Quase sempre alquímicos. Porque me trespassam e arrancam de mim o degelo das lágrimas e isso me dá orientação de sentido. Suas palavras ateiam fogo em meus olhos. E desse incêndio, das poucas vezes que eles escaparam, certo foi, que saíram gravemente feridos.
Te deixo um abraço pelas lindas palavras, minha miragem de silêncio e frio.
Ana,
ResponderExcluiré tanta intensidade costurada com a dor que doo junto.
o silêncio é para mim um grito interior que nos rasga as têmporas da realidade.
ResponderExcluirMais uma vez a rainha a reclamar o seu trono!
Parabéns, porque está lindo, profundo, intenso e muito inteligente.
você passa um tempo em escrever para nos brindar com tamanha beleza em desenhos verbais... que ele, o sinal, se abra para os novos caminhos.
ResponderExcluirÉ sentimento,alma,coração e inspiração que compõe o seu dom de escrever!
ResponderExcluirLindo texto!
A Cara da Poesia
Muito bom!
ResponderExcluirAdorei!
Quando ausências nos sufocam lugar algum acolhe, seria a solução atravessarmos como cegos, olhando somente para o céu?....
ResponderExcluirAbraço-te junto com a Pipa.
Gosto muito das tuas escolhas artisticas.
ResponderExcluirAna que lindo txto..vc me inspira sabiaaa!
ResponderExcluirEstou sentindo falta de vc no meu blog..aparece minha escritora preferidaa!!! Um beijoo.. Valentina!
Tem jeito de não ser sua fã?
ResponderExcluirDe vir aqui várias vezes para ler o texto novamente!
Vc é brilhante minha querida!
Bjs.
Simplesmente brilhante concordo com a Fatiminha.Você é incrivel.beijos achocolatados
ResponderExcluirUm texto belíssimo, denso, tão intenso que faz doer! A alma! Adorei passar por aqui!
ResponderExcluirOlá Ana Karina, desejo que tudo esteja bem contigo, sempre!
ResponderExcluirDesculpe invadir assim, mas, encontrei sua miniatura e seu comentário lá nas Gotinhas de Ternura da Sandra, e não resisti a tanto mistério. Cá estou e deveras contente por ter invadido este recanto de belos textos, de escritos deveras sensíveis, palavras que emocionam, e nos envolve! Parabéns por texto tão belo e repleto de sentimentos!
Muitas vezes o silêncio pode parecer sombrio, assim pensam alguns, eu já não vejo dessa maneira, pode parecer assustador quando abusamos do tempo de estar nele, pois tudo que é excessivo sempre nos provoca mal estar, portanto alguns instantes mergulhados no silêncio
nos faz entender, ou desvendar algumas dúvidas.
Caso considere inoportuna esta minha invasão e comentário tão singelo, é teu espaço, jogue ao lixo esta minhas palavras escritas. Desejo a você e todos ao redor infinita felicidade, um grande abraço, e, até mais?
Que texto gostoso de ler!
ResponderExcluiramei o jeito como vc escreve..
vou seguir seu blog para acompnahar seus textos..
abraços..
Um olhar atento e palavras em punho realmente, a observação em volta do ser fica muito mais interessante.
ResponderExcluirbjs.
Os espaços com suas fôrmas. Carros me angustiam dependendo da temperatura e pressão que ofereça a noite. Casas, apartamentos, colos, todos espaços que podem conter corpos, acolhendo-os ou tão somente comportando-os. O silêncio, esse não precisa de lugar para encher de dúvida e saudade as almas, que são homeless por natureza. Talvez por isso mesmo tenham escolhido andarilhos feito nós para morar.
ResponderExcluirReconheceria o tic-tac mesmo sem sentidos com que te ver o rosto. Tua voz autoral, inconfundível.
ResponderExcluirComovente este texto!
ResponderExcluirAlém de Belíssimo
é como sorver o nosso próprio infinito...
abraços
Que texto lindo, cheio de sonoridade, de imagens. Muito bom mesmo!
ResponderExcluirFazia algum tempo que não vinha por aqui. Adorei o jogo de palavras, a sonoridade! Saudades...
ResponderExcluirMeu Deus, que aflição!
ResponderExcluirKarina, correndo o risco de me repetir, dir-te-ei que ler-te é um doce fascinio!...
ResponderExcluirBeijos meus,
AL
Karina!
ResponderExcluirDia destes, numa lotação uma mulher levantou-se apressada do banco preferencial ao ver um cego embarcando, foi gentil, mas me ocorreu que talvez o cego tenha o sentido do olfato aguçado e que então soubesse que alguém lhe deu o lugar e era uma mulher e sabe-se lá quantas outras coisas soube daquela mulher que pós-moderna não lhe deu um oi.
Escrever. A propósito de nada, a propósito de tudo. É este o dom.
ResponderExcluirBrilhante, como é hábito.
Um beijinho
Olá Ana Karina, que tudo permaneça bem contigo!
ResponderExcluirVenho novamente para agradecer sua tão gentil visita, e me saciar de mais belas palavras escritas com toda a profundidade da alma, assim vejo sua escrita, tanto que envolve por total quem lê. É como dizem, escrever é uma arte, e você pelo que leio por aqui, é uma artista, parabéns! Encantador este teu estilo, deveras encantador!
Desejo a você e todos ao redor intensa felicidade, obrigado pela visita um enorme abraço e até mais!
Muito bem escrito, me comoveu bastante. Abraços
ResponderExcluirVim desejar-te uma linda semana.Beijos achocolatados
ResponderExcluirolá. estive por aqui dando uma olhada. muit legal. gostei. apareça por lá. abraços.
ResponderExcluirBravo!
ResponderExcluirBela escolha ...!
ResponderExcluirÉ no meu silêncio que me ouço, que sinto que tenho um coração, que bate vezes sem compasso quando passo esbarrando meu canto mudo de vida e de morte, e eu nem sei se isso é Deus ou só minha mente que não entende que viver é só uma experiência que levamos com a gente para o escuro negrume da morte que me ronda diariamente e não sei como fugir desse momento.
ResponderExcluirAmo ler seus contos!
Abraço,
Manoel
Belo tic tac da vida.Gosto da sua expressão ,do derramar da chuva no seu coração.
ResponderExcluirCris
Postei ...sobre amor e amar.Apareça
Sabe querida Ana, eu nao sou poeta, acho que nem tenho capacidade para escrever poesias, nem as entendo muito bem, mas sei achar lindo, mesmo que nao entenda muito bem, e acho lindo o que vc escreve viu?
ResponderExcluirVim te desejar um bom final de semana minha querida!
Bjus
Marly
Um encanto cada letra...A magia, a arte
ResponderExcluirestá em você querida.
Meu outro blog que vc é seguidora
não abre mais devido problema de email
por isso vim te convidar para
seguir este.
BEBE II...Na carona das ondas e do vento.
http://bebepoesias.blogspot.com/
Um abraço
da
BEBE
Busquei na profundidade algo de sensível,pois seu texto nos traz uma densidade que nos leva a querer ler mais e refletir .Que bela junção de palavras.Um grande abraço!
ResponderExcluirEstou participando de um concurso literário e preciso de votos. É simples. Se você tiver facebook entre na sua conta e acesse este link:
ResponderExcluirhttp://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe.php?id=622
Daí é só logar na página do lado direito no topo "login with facebook" e votar no botão vermelho abaixo da foto. Para ir ao texto vai na categoria escrita, na segunda página. O texto é M. de Ricardo Barbosa.
Conto com sua ajuda!
Pode votar todos os dias até o final de julho, você também concorre a prêmios.
Obrigado!
Prazer em te conhecer.
ResponderExcluirFalas de percepções, movimentos, perdas, expectativas...., tudo em silencio. no silencio.
Boa noite moça.
Bonito texto.
Parabéns pelo belíssimo blog. Acompanho diariamente. Visite o Blog Diniz K-9.
ResponderExcluirhttp://dinizk9.blogspot.com/
Texto perfeito!
ResponderExcluirPena que por falta de tempo acabo ficando longo período sem ler textos tão belos...!
Gosto demasiado dos teus escritos...
Parabéns!
Beijo no coração.
Deus te abençoe.
Impactante e perfeito!
ResponderExcluirNos prende a respiração!
Excelente!Parabéns!
Um beijo!
Sonia Regina
Nossa... adorei o seu blog... escreve muito bem e a seleção de fotos está magnífica... Nossa, Picasso é mesmo grandioso, mas gosto muito de Salvador Dali tmb...
ResponderExcluirabração e até mais...
Mais uma seguidora e futura fã! ;)
ResponderExcluirMuy interesante. Fue un gusto leerte y visitarte.Un saludo fraterno amigo.Me gusto' mucho tu Blog. Seguiré visitándote con tu permiso.
ResponderExcluirhttp://socialculturalyhumano.blogspot.com/
Very good blog :)
ResponderExcluirFollow me
http://mojeprzyjacielepsy.blogspot.com/
No momento em que paramos no ponto cego da vida perdemos o sentido de direção e até a coragem para prosseguir imaginando que o sinal está sempre fechado para nós...Um palhaço com olhos de vidro na arte...
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