
Gostava de bater com força na tecla dura da máquina de escrever. De observar, como se tivesse ingerido substância lisérgica, o mundo em suspenso até que a letra batesse com força no papel branco, não! no papel agora sépia. Cada acorde seco e curto era uma fração do mantra que me entorpecia. Cada batida bastava para o meu episódio de mania.
As linhas cheias de letras desciam papel abaixo, e eu me abandonava no barulho hipnótico adentro meu abismo de inquietações. As perguntas reinavam sem réplicas, e eu ia ficando pequenino, cada vez menor, cada vez mais anêmico de respostas.
Gostava de castigar meus dedos, operários obedientes, de cabeças baixas e sempre a postos, mesmo quando o instante entre uma palavra e outra se prolongava e ia longe na madrugada profunda. Era justamente nesse hiato que eu me aproximava mais de mim, ou de vez me afastava. O horizonte baço do papel me fazia de joguete, e eu não podia contar senão comigo para me acudir. E a máquina a me esperar, como esperavam as mulheres ladinas pelo cair da noite.
Meus dedos eram a única evidência que eu de fato havia estado ali, sentado em frente à Underwood. Não fosse por gastar-me a luva de minha pele, a máquina seria tão somente uma miragem de silêncio. E era assim que na maioria das vezes eu a olhava da ponta do corredor. Como uma miragem. Algo que não nos pode ver, porque nem ao certo sabemos se existe. Eu a olhava com intimidade de amante e respeito de filho. Ela era antes um ídolo, que depois de ser tocada e dar-se à luz diante de meus olhos, causava-me dor. Ela nascia mas quem doía era eu. Doíam-me os dedos, sedentos do sangue espúrio que ela jorrava em tinta carmim. Era na gravidade daquelas noites que eu bebia o meu álcool e crescia o meu vício: a minha escrita pagã.
Havia tempo naquele tempo, e nem o tempo envelhecendo depressa pôde roubar-lhe a robustez. Ela ainda reina absoluta em seu trono e desperta cobiça. Depois dela, todos os meus amores foram efêmeros.
Gostava de bater com força na tecla dura da máquina de escrever.
Pintura: O princípio do prazer (retrato de Edward James), Rene Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1937)








As teclas do computador não têm tendões. Os tendões longos e pronunciados da máquina de escrever. Era preciso vigiar os hiatos para não mergulhar nos vãos. Os dedos enervados pelo tropeço, tentando recuperar o prumo e a pose da fluência. Era desconcertante querer algo com tanta urgência. A ideia correndo à frente, o gatilho das teclas, a mira. No pequeno triângulo que balizava o estampido que colava a fita ao papel, letra a letra, imprimia-se o caracter, the character, meu caráter.
ResponderExcluirLembro das teclas, do som e da força para imprimir no papel...
ResponderExcluirNostalgia.
Um grande bj
Olá Ana.
ResponderExcluirEu me transportei como se assistisse à cena.
O que sabemos nós sobre os sentimentos do criador e sua ligação com seu instrumento de trabalho,com sua necessidade de expressar-se através de sua obra,que sabe não poder guardar só pra si mesmo,o quanto se doa,o quanto exige de si e da cumplicidade entre o que cria e a quem o ajuda a dar forma à sua criação?
Viciante sua obra!
Bjus
Elaine.
Olá Ana.
ResponderExcluirEste texto é incrível. Parei por um instante e comecei a imaginar cenas de um ambiente frio, solitário, porém, até mesmo com princípios otimistas, inspiradoras, enfim...
Parece que, quando eu leio este texto, por um instante, não escuto nada ao meu redor, me isolo, fico preso às palavras.
Parabéns!!!
Beijos
Buen relato. Muy interesante.Me gusto'. Un gusto visitarte. Te envío un cordial saludo deseándote un buen fin de semana lleno de paz y armonía .
ResponderExcluirBelo texto! Gosto como expõe sua escrita. Parabéns! Abraços.
ResponderExcluirEra como permitir que um exército de enormes aranhas de aço se inoculasse inexoravelmente para dentro de nós e, pedir, prosaicamente, à mesa, que elas nos passassem a travessa de saladas. Enquanto isso se fazia um esforço sobre-humano para controlar o medo, já que uma vez presa em seus casulos, que eram agora chão e teto justapostos entre as teclas, não haveria mais como renunciar àquela suave e secreta convivência com elas. Os fios eram o idioma sob o qual alinhavávamos o ser para reconhecer a linguagem circundante da própria casa. E só nos sabíamos profundamente quando nos deitávamos reféns voluntárias daquelas redes, de onde, quietas, aprendíamos a técnica de capturar pequenas presas. A mais suculenta delas, às vezes tínhamos que passar semanas inteiras à espera. A vida nas patas metálicas dos linotipos, entre outras coisas, servia-nos o banquete da paciência.
ResponderExcluirUm abraço contra-fóbico, Ana.
Então, o que fica no papel não são tintas...
ResponderExcluirsão pedaços de nós?
Aqui fica um pedaço meu...
Oi Ana!
ResponderExcluirQuanta saudade, pois, de "tempos românticos" guardados nestas linhas, onde havia interação com o ambiente,onde erros significavam ter de começar de novo literalmente e sempre ficavam resquícios na lixeira ao lado, que às vezes esquecidos faziam eco aos olhos curiosos. Hoje um del nos basta, mas nos esfria...
Grande Abraço!!!
Bom Dia, Ana:
ResponderExcluirObrigado por me ter "seguido" no meu blog. Também passei a "segui-la"!
O seu texto é magnífico e, para quem "a" utilizou, essa máquina de dactilografar tudo e mais alguma coisa, é realmente um "reviver nostálgico".
Um BOM DOMINGO.
Abração do
RUI
Estou arrepiado.
ResponderExcluirAdorei o conto, o blog e seu estilo.
Espero que seu livro saia em breve!
Abraços!
Isaac Ruy
oi querida
ResponderExcluirum conto muito intenso,que se ler com prazer,
gostei de conhecer seu blog e obrigado por seguir o meu.
claro que também já estou seguindo o teu.
bom inicio de semana.
baci
Passando para desejar uma linda semana.
ResponderExcluirPS. viva o modernismo(minha tendinite doe menos)
Belo conto ou fato? Para os poetas e escritores acredito que seja fato.
beijos.
Olá bem vinda ao meu blog. Estou um pouco mais ausente de blog, mas espero voltar como antes. É sempre muito bom ver novos seguidores chegando. Notei q vc tem aqui belos textos. Tenho q responder alguns recados mas voltarei assim q der. Beijos :D
ResponderExcluirHoje estou passando apenas para lhe fazer um convite.
ResponderExcluirEstou falando do www.superlinks.blog.br que é um site agregador que vale a pena visitar, pois é mais um espaço no qual você poderá publicar seus links de matérias, pois é um site sério e com critérios bem positivos.
Espero que goste da dica.
Um grande abraço
Fiquei imaginando a cena e pensando o quanto é necessário o estar consigo mesmo para criar-se um magnífico texto. Ou talvez acompanhado do silêncio e a solidão. Belo texto. Muita paz!
ResponderExcluirPassando para deixar um beijinho, seja bem vinda ao Perseverança.Deixe sempre seus comentários e dicas.
ResponderExcluirBjs
Fantástico texto... continuação!
ResponderExcluirÊTA TEMPO BOM!!!
ResponderExcluirVIM TAMBÉM PEDIR SEU VOTO PARA UM CONCURSO QUE SOU FINALISTA , ESTOU UNS 15 VOTOS ATRÁS E SE CONSEGUIR ALGUNS VOTINHOS PRA MIM FICAREI GRATA, SÓ IR NO LINK QUE VOU DEIXAR ABAIXO ESCOLHER MEU NOME - FLAVIA- E VOTAR, O LINK É
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UM FIM DE SEMANA ABENÇOADO. BEIJOCAS...
Olá,
ResponderExcluirObrigada por fazer parte do meu cantinho seja bem vinda sempre :)
Bjs e um ótimo final de semana pra você
Ana,gostei muitíssimo do seu texto.Muito denso,a profundeza das palavras que vão da superfície,até encontrarmos o significado que queremos dar ás palavras.Parabéns pela escolha de tão importante postagem.
ResponderExcluirAbraços!
Deu saudades da cadência da máquina de meu pai...
ResponderExcluirSeu texto é beliíssimo, de tão real, passa como
um filme. Voltarei, sem dúvida, gostei, não só
de ONZEPALAVRAS...mas de de todas...
Abraço
Lúcia
Karina,
ResponderExcluirMuito belo o teu texto! É uma delicia ler-te...
Beijos,
AL
Muito interessante o Blog,
ResponderExcluirGostei muito do que vi por aqui.
E te convido para conhecer meu espaço, caso queira dar uma olhada, seguir..;
http://www.bolgdoano.blogspot.com/
Muito Obrigada, desde já.
Oi amiga querida!!
ResponderExcluirSabe dfe uma coisa não tenho saudades da máquina de escrever não...eu era péssima datilógrafa rsrsrsrsrsr ainda bem que surgiu o pc me dei melhor com os teclados rsrsrsrsr
mas seu texto tem a beleza de sempre, obrigada por nos presentear sempre com tão belas palavras que são capazes de nos transportar no tempo...
Bjuusssssssss
com amor
Marly
Mulheres assim são raras, parabéns benemérita.
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