quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não é mais preciso gritar


Leia os meus lábios. Leia em voz baixa. Ouça a minha respiração e o som da minha saliva, já que agora não é mais preciso gritar. 54, 43, 32, 27, 17 anos. Não importa. Eu perdi você. Não há mais canção com o nosso coro no refrão. Sempre ríamos quando desafinávamos. Desafinávamos sempre. Agora toca apenas esse órgão repetindo indefinidamente as mesmas frases musicais. Será que é para fazer com que percamos a noção do tempo? E que tempo esquisito faz hoje. Parece que uma sombra eclipsou o dia. Não é nuvem. Não é noite. É luto? Pelo menos não vai ficar a memória do seu rosto envelhecido e arruinado pelos anos. É verdade que a sua pele já tinha perdido a cor, e você tinha perdido os cabelos, mas deixe-me contar-lhe um segredo, boneca: seus olhos se mantiveram acesos até o último suspiro, e no derradeiro deles, na profundidade da menina dos seus olhos, sua íris brilhou ainda mais verde: como quem vê o caminho a seguir. Meus olhos castanhos não divisam esse horizonte. Verão os teus olhos essa carta? Não se esqueça de continuar lendo em voz baixa. Sussurre minha querida, não há mais porque gritar. A dor da solidão não faz alarde. Como também é no silêncio que o tártaro se apropria dos dentes dos vivos. Não há muitas vantagens desse lado, como você pode ver. Você ainda pode ver? Eu vejo um cenário brumoso. Você saiu de cena. Procuro alguém, mas não vejo viva alma. Ando com meus braços estendidos, como um cego sem bengala. Sim, eu toquei aquela música na sua última cerimônia. Não errei nenhuma nota. Meu violão não tinha o mesmo vigor das noites alegres que se alongavam no sofá. E dessa vez você não bateu palmas. Lembra-se de quantas garrafas de vinho esvaziamos juntos enquanto eu tentava tocar a música sem errar? Eu errava porque me perdia nos seus olhos. Acertar todas as notas seria desencantar-me de você. Seria recusar o vinho em meio ao brinde. Será que as suas garrafas foram lançadas ao mar com mensagens de pedidos de socorro? Talvez se tivéssemos feito isso você poderia estar aqui, fruto de algum heroísmo de pirata. O pirata hoje sou eu: perneta da sua presença, caolho da beleza das suas cores, desnutrido de tesouro. Mas não quero que você se aborreça. Não hoje. Segue em paz. Porque costumam dizer que as coisas por aqui se ajeitam. E logo haverá crianças recém chegadas soprando mais uma vez novos dentes de leão.



Pintura: O velho violonista, Pablo Picasso 1881 - 1973 (óleo sobre tela, 1903)

40 comentários:

  1. Bom dia
    Um texto feito como se fosse uma pintura fresca de palavras bêbedas de insatisfação.

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  2. Chorei, chorei, chorei!!!
    Que texto minha amiga!
    Bjs.

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  3. Aqui estou eu lacrimejando pela sensibilidade que encontrei no texto.E pintura fantástica.Ótima quinta.Bjobjo

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  4. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Alma de poesia. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    http://narroterapia.blogspot.com/

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  5. Lindo, profundo? Quais adjetivos mais posso usar? Gostei muito desse texto, escrito de uma maneira que mostra que o amor é singelo e a perda não tão dolorida assim.

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  6. Os lutos são sempre monólogos gritando em silêncio... adorei o texto Parabéns. beijo

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  7. Em algum momento me lembra Inês Pedrosa.Uma conversa necessária com quem faz falta.Em outro momento, aquela moça do curso do Noll que tinha um texto que vc gostou muito. Quando você lança um "querida" e um "boneca". Bem bom. Eu gosto da imagem do pirata.Bem bom.
    Me dá vontade de voltar a escrever.
    Bj

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  8. Sabe, aquele texto que convence?
    É assim, é esse! E muitos outros que já li, seus!
    Beijos
    Lúcia

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  9. Que maravilhosa entrar no meu blog e começar a ler, nas atualizações, este poema... rico de beleza e emoção...ele me fez navegar por mares a procurar as garrafas de vinho com mensagens... fantástico!
    Parabéns

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  10. ¡Hola! He visto que seguías mi blog. Como he tenido problemas con él, he decidido hacer otro:http://lacrisisdesamantha.blogspot.com/
    Espero que te pases por allí y te siga gustando esta continuación.

    Siento no entender nada de lo que publicas =S Saludos.

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  11. poesia em prosa.
    lindo
    Helen

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  12. Minha querida

    Um texto maravilhoso...um lamento sereno em cada palavra...um choro silencioso em cada letra...uma redenção de amor, adorei e deixo um beijinho.

    Sonhadora

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  13. Ana,

    que seu texto - belíssimo! - prova que a perda, paradoxicamente, sempre acrescenta algo.

    Forte abraço!

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  14. "E se eu corresse para os seus braços sorrindo? Será que você veria o que eu vejo agora?"

    Into The Wide.

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  15. Ahhhh eu estive aqui... e como foi bom.

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  16. Credo, bonito demais!!! Obrigada, foi uma satisfação ler o teu texto.

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  17. Da falta se fazem
    Palavras de não passar.

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  18. Será que não precisa gritar mesmo? Pois não há mais sorrisos quando se desafina, não há mais luz nos olhos.
    Fiquei em dúvida se houve um nascimento ou uma morte(ou pode ser ambos, porque tudo depende do ponto de vista)ou se é apenas uma carta de despedida; ou apenas fragmentos. Mas, enfim gostei do que li.
    beijos, tenha um belo domingo

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  19. Faço um paralelo da perda com a vida onde as marcas sao tatuagens sobre a pele que sempre vai estar lá.

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  20. O seu blog é o blog deste gênero que mais frequento. Não porque já te considero uma amiga e porque compartilhamos o mesmo amor, mas porque você tem o mesmo jeito particular de desenvolvimento, este, sem aqueles diálogos fascistas que vemos por aí, você é clara, objetiva e com um lirismo doce que me faz lembrar de mim mesma quando escrevo. Somos muito parecidas, mas mesmo assim, cada uma com a sua particularidade, ou partículas de sentimentos que esbanjam amor o tempo todo.

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  21. Como sempre a magia das palavras a brilhar sobre os seus textos!
    Muito bom...

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  22. Obrigada pela visita no meu blog http://susimao.blogspot.com Independente disto, você escreve maravilhosamente bem mesmo, e se meus comentários serviram para incentivá-la... então continue escrevendo que você nem precisa de incentivo... è ótima escritora mesmo, e eu viajo nos seus textos... Parabéns...

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  23. Ana,

    Eu sabia que ao seguir seus passos encontraria refúgio. Sim, encontrei...

    A solidão que provém da ausência é um grito silencioso que a gente ouve à distância. E de todas as ausências, a que me faz sofrer mais é a perda da cumplicidade.

    Belíssimo texto! Aliás tudo aqui é inspirador. E suas dicas de leitura, valiosíssimas. Parabéns!

    Voltarei.

    Beijos

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  24. Profundamente belo o seu texto!

    Bjs dos Alpes

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  25. Pela primeira vez no seu blog já estou seguindo você .
    Seus texto é muito lindo não teve como sair sem seguir você e sem comentar tanta profundidade
    da postagem do seu blog.
    Desejo -lhe uma abençoada semana beijos de paz e luz.
    Evanir

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  26. Olá...
    Lindissimo teu texto com pré-textos bem reais, bem colocadas metáforas...Parabéns!
    Obrigada pela visita no blog, também já te sigo e voltarei mais vezes para passear por aqui com mais tempo...
    Seja Bem Vinda e volte sempre que quiser.
    Bjs no coração.
    Lecy'ns

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  27. Minha querida

    Passando para agradecer o carinho da visita e as palavras.

    Deixo um beijinho com carinho
    Sonhadora

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  28. QUÉ TEXTO TAN BELLO Y TRISTE..
    INQUIETANTE.. UM PRAZER LERTE
    P.D. GRACIAS POR VISITARME EN “EL HECHIZO” .. EL PRÓXIMO 31 DE OCTUBRE TE ESPERO ALLÍ
    BEIJO
    :x

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  29. Quando for grande quero escrever assim. Cumprimentos!

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  30. felicidades por poder transmitir tanto en tan poco espacio !

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  31. Eu odeio ficar sem palavras, já que voce merece as melhores palavras que um elogio pode significar!!! Me sinto orgulhosa de ter voce como seguidora, e me sinto na intimidade de ti desafiar... Aceita?!

    Arbração!!!!!!!!!

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  32. Na vida, tudo renasce e se renova... até o amor! Tuas mãos ainda podem tocar belas melodias, e teus lábios ainda acendem doces madrugadas!

    Beijos,
    AL

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  33. Olá, prazer em conhecer voce e seu blog!

    Depois de ler um texto tão sensível, penso:
    - felizmente sempre há um novo amanhã.

    Beijos

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  34. Ana,

    Como é bom voltar e como é sempre certo o regresso ao que nos alumia, para lá de distâncias e tempos.
    Um beijinho,
    Elisabete

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  35. Sempre que passo por aqui, fico admirado com a poética do teu texto... sensível, tocante, simples e profundo, se um dia escreveres um livro, divulga, se já não tiveres, quero conhecer, ler esse livro, quem sabe não aprendo um pouco sobre essa forma tão especial de escrever.
    Abraços.

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  36. Ana,

    Entre a aceitação e a falta!
    Bela narrativa.

    Abraços,

    Anna Amorim

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  37. Belíssimo seu blog! Parabéns!

    O silêncio é um dom, sem dúvida! mas, gritar é para os que não aceitam limites...

    Beijão, querida!

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