
Quando eu nasci, com 2,7 kilos, meu pai tinha medo de me pegar no colo, porque de tão pequena, ele temia quebrar a boneca. Então ele resignou-se a uma alegria contemplativa, esse contentamento descontente. Porque brinquedo que não se pode pegar não tem graça. A interação é que torna a coisa viva. Existir somente não basta.
A sua pergunta foi feita menos pela boca e mais pelos olhos acesos: É você?
Quando respondi ainda não sabia quem estava diante de mim, e não sei se foi a inflexão da voz ou a escolha das palavras que me fez em uma fração de segundo pensar: Sou eu? Sim. E eu ao mesmo tempo sou tantas. Mas em todas elas deve haver uma unidade, algo que as faz iguais de alguma maneira. Resoluta respondi: Sou!
Depois que você se revelou, não consegui mais prestar atenção nas palavras que desobedientes saíam de minha boca, nem naquelas que me chegavam aos ouvidos. Desde aquele encontro e até receber a prometida mensagem fiquei como pai que espera o filho nascer. Estava ciente que a semente vingara, mas não a sentia no ventre. Eu era joguete nas mãos do tempo, esperando a coisa surgir chorona diante dos olhos, fazendo barulho para credenciar o fato como verdade e não como sonho sonhado no meio da longa e negra noite.
A mensagem finalmente chegou. E pesava ainda menos que 2,7 kilos. Só então entendi como a alegria da contemplação pode nos invadir e preencher o ser. E por me completar de jubilo, eu li uma, duas, muitas vezes. Sem maneiras com que responder. Com medo de quebrar o encanto. Equilibrando desajeitadamente as palavras, não!, a LINGUAGEM a partir da qual ela foi construída, nas minhas convexas mãos de receber presente. Então me acostumei à ideia de ter recebido essa graça divina da amizade, depois de um hiato de longos anos. E com coragem, sentei-me em frente a essa página em branco da minha vida para escrever. Mas não sei o que fazer. É o mistério que se apresenta diante de mim. Sempre me ensinaram a usar as coisas que se nos dão por exibir ao longo da vida, diante dos olhos. Uma roupa para cobrir. Uma lâmpada para acender. Um lápis para escrever. E mesmo que dispamos o corpo, aceitemos o escuro e apaguemos a letra, ainda assim usamos essas coisas pelo avesso. Só que agora, nesse exato instante, nesse segundo pesado, palpável, eu não sei o que fazer disso. Não sei o que fazer da beleza.
É com perplexidade que me olho como a uma estranha desde aquela pergunta. Quanto tempo passou desde então? Lembro que fui a uma padaria naquela mesma noite. Comprei cinco vidros de pimenta com um sorriso débil na cara. Logo eu, que não me atrevo a picâncias. Acho que precisava fazer alguma coisa comigo, dar-me utilidade. Então comprei cinco vidros de pimenta, dos quais só restaram quatro, pois um deles quebrou-se assim que pisei em casa. Desajeitei-me de ser, de ter de continuar sendo até a euforia passar, o dia raiar. Então precisei abrir a torneira para usar a água para molhar o pano para limpar o chão para não ter de pensar como a vida me joga de um lado para o outro e em toda parede onde meu corpo se abandona eu vejo o contorno dos meus limites como o desenho riscado na parede branca do quarto da empregada de G.H. E não é mais o grito que fica preso na minha garganta, mas um suspiro que me arranha as cordas vocais quando preciso dizer: Deus, como tudo isso é belo!
E da beleza? O que fazer? O que faço da ausência de nojo das baratas? Eu vi tantas hoje saindo dos bueiros, e não me crispei, Deus! O que faço da letra A? O alfa. A primeira letra de nossos nomes? A letra que desenha a minha boca de pasmo. Do assombro divino que foi reencontrar você? O que fazer da insônia? O que fazer, Deus, de mim?!
Tudo escapa-me como se nos escapam os detalhes quando nos assalta a surpresa. Eu, saqueada do presente e do futuro. Inundada por uma alegria de passado em preto e branco que volta a ganhar cores frescas de tinta recém pintada. Ai! De novo o medo de manchar o quadro. Guardo de novo no armário? Mas ao guardá-lo nem da alegria contemplativa poderei desfrutar...Não, não guardo no armário. Nem penduro na parede! Vou lá dentro dele, fazer parte da pintura, como fez Dali, como antes fez Magritte. A interação é que torna a coisa viva. Existir não basta.
Pintura: Tentando o impossível, Rene Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1928)








Oi Ana Karina!
ResponderExcluirComo fez Van Gogh, que existiu até a exaustão e se consumiu muito antes de consumar-se em seus atos posteriormente heroicos.
abçs,
Paulo.
Ai Anna, mais uma vez me fez voar por um mar de palavras plenas e sentir um fresco na alma.
ResponderExcluirDiria que nada lhe escapa, mesmo nada, com a sua pena consegue pintar cada detalhe daquilo que a maioria das pessoas só pode sentir.
É divino ler as suas palavras que tão minhas conhecidas me fogem na hora de as conjugar assim.
Não sei se é uma referência para si, mas adoro sentir Pessoa nos seus textos. Aquela frase que diz: "E eu ao mesmo tempo sou tantas" de imediato me fez lembrar Pessoa com a sua célebre "Não sei quantas almas tenho". Perdoe-me se não gostar da comparação ou não achar pertinente mas Fernando Pessoa é o meu autor de eleição e conseguir recorda-lo nas palavras de outros é uma emoção.
Beijinhos e continue a deleitar-nos com a sua maravilhosa leveza de escrever.
Mais um texto repleto de magia. Parabéns!
ResponderExcluirTua tinta ainda fresca do encontro. Cores nascidas.
ResponderExcluirMinha querida
ResponderExcluirUm belo texto, escrito com os dedos da alma e quantas vezes nos perguntamos...o que fazer de nós...o que fazer dos sentimentos que nos afogam...o que fazer de tantas contradições que existem em nós.
Adorei o texto e adorei a visita.
deixo um beijinho com carinho
Sonhadora
Ana,
ResponderExcluirVim aqui ler você e saio com a certeza de ter me encontrado... A gente precisa estar, para ser. É preciso sim se envolver e se misturar, para fazer parte de. É preciso tocar, sem medo. Só assim enxergamos a beleza das coisas: mergulhando nelas!
Sim, Ana, "a interação é o que torna a coisa viva. Existir não basta".
Bravo! Mais uma construção estética perfeita.
Beijos, Ana! E obrigada por ir lá deixar um pouco da sua delicadeza.
Passando para deixar um beijinho no seu coração.
ResponderExcluirQue o sol aqueça sua alma, que a chuva refresque sua mente, e o luar traga inspiração nas suas palavras.
Bjs
Nicinha
Senti um rio, a correr...sem obstáculo, pelo caminho...assim, é a fluidez desse belíssimo texto, como o de tantos outros, que aqui venho ler.
ResponderExcluirUm beijo, Ana Karina,
da Lúcia
A intensidade dos teus textos fascina-me!
ResponderExcluirBeijos,
AL
Intensidade!
ResponderExcluirComo antes fez De Chirico. "a interação é que torna a coisa viva. Existir não basta."
Ana, amo os teus escritos. Amo Magritte. E amo quando me visitas.
Beijos!
Existimos: a que será que se destina?
ResponderExcluirTodos los componentes de Los Espíritus de Haddock, damos la bienvenida como nueva seguidora a onzepalavras. Las palabras te envuelven, son tus amigas, nosotros queremos ser tus amigos y compartir nuestras palabras.
ResponderExcluirTu estilo y el contenido de tu blog habla de como eres, un ser humano con una personalidad y sensibilidad que transmite a los que entramos en tu blog. Te esperamos como seguidor en "Los Espíritus de Haddock".
ResponderExcluirMinha querida
ResponderExcluirpassando para agradecer a visita e deixar um beijinho.
Sonhadora
Realmente precisamos interagir com tudo que nos rodeia,pois assim estaremos vivendo a plenitude da vida.Belo texto.Um grande abraço!
ResponderExcluir"Existir não basta."
ResponderExcluirTeu texto me lembrou um trecho de um livro, Ei! Tem alguém aí?, do Jostein Gaarder.
"De onde vem esta pedra? É um pedacinho de um planeta, claro, e o planeta é um pedacinho do universo."
Uma cama amarrotada pela passagem do amor
ResponderExcluirLençóis que aprisionam o calor
Suspiros espalhados pelo chão
Uma imagem santificada sustenta o louvor
Uma pecadora ungida pela chuva
A sorte e a morte em bravata eterna
As ave marias que uma boca vomita
Para no céu ser, clemente a sua pena
Já não há xailes negros na ilha
Já ninguém liga a agoiros
O mar continua açoitar a costa
Deixando despojos, tesouros
Bom domingo
Terno beijo