
Giram em torno de mim. Numa ciranda infinita. Eles. Os meus personagens. Há aqueles impacientes. Que têm muito a dizer. E me encaram brutalmente como se a mim fosse atribuída a culpa pelos seus silêncios. Olho-os com a minha boca entreaberta sem batom nem cor. Assim, tento mostrar a essas figuras que ainda não tenho palavras com que lhes adornar os sentidos. Pois a mim também me faltam as letras certas para traduzir a eles meu mutismo. Como me aborrece esse drama. E como a mim eles me aborrecem. Esses personagens. São reis e messalinas. De becos e avenidas. E misturam-se numa rapidez plural. Criando novos espectros, me iludindo a ótica. Essa gente. Gente pobre. Gente rica. Essa gente doente. São nuvens de mau agouro e centelhas de redenção. E seus sorrisos dúbios me desconcertam. Independem de mim. Dominam-me e determinam como eu piso o chão. Alguns parecem não querer dizer nada. São tão absolutos em seus existires que prescindem explicações. Esses mansos me acolhem. Aceitam-me com meus pesares e minha palidez. Meus olhos fundos. Esses domados me esperam. Mas a espera é só um curtir de desânimos daqueles que querem gritar. Esses outros. Esses meus personagens. Também meus personagens. Se ao menos me soprassem o rosto, jogando para trás meus cabelos. Dando-me a sensação de movimento. Como se numa estrada eu estivesse, pronta a cruzar uma linha de chegada em que lá, no ponto de transição todas elas: as palavras!, estivessem a me esperar, já prontas em seu fundo e forma. Assim eu lhes saciaria a sede de dizeres, e me esvaziaria, então. Pois também as palavras se produzem e no mesmo instante se afogam em minha garganta. Desordenadamente. Não posso beber nem respirar. Apenas sou. Ponte ou intermédio sem começo nem fim, como uma ciranda infinita.
Pintura: A dança, Henri Matisse 1869 - 1954 (óleo sobre tela, 1910)








A-DO-REI!! Muito lindo, muito denso, muito cheio de sentidos e idéias, muito sintético, muito curtinho, como convém aos dias atuais. Parabéns, Ana!! bjss Beatriz
ResponderExcluirE pergunto-me se não são eles que nos amordaçam, por medo de contarmos seus segredos. Ou ainda: medo do exaurimento. A sobrevida das reticências, adiando o ponto final.
ResponderExcluirAcredito que quando, você coloca tudo o que eles querem no papel, tudo fica mais "calmo" e alguns até somem.(rs).
ResponderExcluirbjs
Olá Ana!
ResponderExcluirVim conhecer o seu blog, li alguns posts, e foi um prazer para mim.
Gostei do jeito em que observa e traduz o que sente.
Agradeço a sua visita também!
:)
Bjoo!
E há quem insista em construir muros. Bom é ser ponto de interrogação, intermédio, nada mais há fora da troca.
ResponderExcluirBuen texto. Muy interesante. Un gusto pasar por aqui y leer tus escritos. Que tengas un buen dia.
ResponderExcluirMinha querida
ResponderExcluirPor vezes...somos mas não estamos, parece que tudo se passa num outro lugar com uma outra pessoa.
Como sempre adoro ler-te, és intensa nas palavras.
Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora
Dizem mais de nós os personagens que inventamos do que nosso próprio reflexo no espelho. Por isso Narciso acha feio.
ResponderExcluirAbraços.
"E misturam-se numa rapidez plural. Criando novos espectros, me iludindo a ótica."
ResponderExcluirConceitos são como dunas de areia que mudam de acordo com os ventos lhes favorecem ou não. Fique bem!
Olá Ana!
ResponderExcluirNeste mundo de sensações, onde se esgotam as tentativas de se construir muito além das aparências, muito além da convivência entre opostos.
Abraços,
Paulo.
Retomei as leituras do Conde Rochester. Ele foi tão assertivo em sua narrativa, que começo a acreditar que exista mesmo um "Elixir da Longa Vida." Mulheres como nós nunca se darão bem com definitividades. Sofremos Infinitudes. Acendemos velas em candelabros imaginários para iluminar o palco onde dançam os mais exóticos personagens de papel, que por algum motivo, foram dobrados, amassados, rasgados e jogados ao acaso. Ainda bem que pessoas como você estão aí para testemunhá-los. Sempre que escrevo um texto e o deito ao lixo, sinto que sou quem ali fico.
ResponderExcluirE por falar em cantiga silente, minha miragem de silêncio e frio, Sting manda lembranças.
"Fragile"
http://www.youtube.com/watch?v=EmDQFWNjHpA
Achamos que se vivermos por personagens sofreremos menos e as dores serão tão fictícias quanto cada um deles.
ResponderExcluirMas o que muitas vezes esquecemos é que cada personagem que criamos tem um profundo pedaço de nós...
Lindo este teu texto.
Abraços
os personagens insitam cantigas, e chegam a sussurra-las em minha mente a aparição dessa dança, mas logo se desfazem quando as notas das vozes ressoam ao ouvido deles..se guardam.
ResponderExcluirAdorei tuas linhas. Você escreve maravilhosamente. Sempre que possível estarei por aqui. Nada como uma boa leitura :)
ResponderExcluirÓtimo domingo! bjs
A gente sempre encontra entre eles uma parte de nós, Ana. É assim que eu descubro vestígios de quem eu sou: nessas falas inesperados ou no silêncio das palavras, para dizer que ali eu não estou. Essa ciranda formada por personagens complexos, tensos e ao mesmo tempo sublimes, é o traduzir dos nossos sentimentos, que na sua maioria são complexos, tensos e sublimes. Às vezes a gente empalidece e se tranca; às vezes a gente sorri e aproveita a sua presença. Mas a vida não é assim, essa alternância de coisas postas, mas nem sempre "degustáveis"?
ResponderExcluirAmei! Estava com saudades... Perdoe-me por me ausentar.
Beijos, querida!
Muito interessante colocar os personagens ainda não utilizados como seres já vivos procurando aparecer, como pequenas facetas de sua personalidade.
ResponderExcluiracho que seria bem interessante ter contribuições suas ao Café Puro, se houver interesse, mande o texto com título e autor(pode ser anônimo, ou algum heterônimo, não importa) para o e-mail "ocafepuro@bol.com.br"
sem querer abusar da palavra "interessante"
ResponderExcluirPassando para deixar um bj no seu coração e claro fazer uma leitura interesante como sempre em sua página.
ResponderExcluirBjs
conheço bem gente de mau agouro, de sorrisos dúbios eque confunde gente com outra gente. é gente gratúita... me dao nojo.
ResponderExcluirum grande abraço e boa sorte sempre!
Helen
Caro(a) Anônimo(a),
ResponderExcluirPara conhecer bem esses personagens, ainda que sejam de mau agouro e sorrisos dúbios, é preciso amá-los. O nojo só contribui para a literatura se vivido for, e para vivê-lo é preciso que essa gente respire, se expresse.
Porque essa gente sou eu, você, o outro. Todos nós. Seres humanos.
Ana Karina Bucciarelli
Caríssima Ana, estou feliz em descobrir tua escrita vibrante!!! Voltarei para novas visitas, certamente. Deixo abraços alados azuis!!!
ResponderExcluirQuerida Ana,
ResponderExcluirFeliz ano, boas escritas e palavras que por você ainda nos serão descobertas e reescritas!
Beijinhos da Nina.