domingo, 30 de janeiro de 2011

O saldo


Um ponto escuro refletido no espelho. Foi recuando devagar, para ver se o cravo incrustado no queixo podia ser visto de longe, que reparou mais detidamente em seu rosto. Costumava tirar os cravos na adolescência, espremendo com os dois dedos indicadores os incômodos hospedeiros não convidados. Mas aquele cravo, o cravo de hoje, era um cravo doído, que a fez lembrar de quando era jovem. De quando havia firmeza em abundância na pele, nos seios, nas coxas, agora sempre cobertas, com textura de papel amassado.

Foi isso. A vida foi um rascunho desprezado num cesto de lixo. A pele era agora uma roupa frouxa, guardando um vazio que se esvaía a cada instante. A vida, que veloz escapava em fuga. Ela podia sentir a sua biografia minguando. Rápido. Tão rápido quanto a Terra gira em torno do Sol, ainda que não fiquemos tontos, e só percebamos esse movimento quando assistimos a luz do grande astro dissipar ao poente. A ausência da luz, que faz unir a sombra e a treva.

Recostou o corpo no espaldar da cadeira, de carvalho, tão antiga quanto ela, e buscou na memória o ponto exato em que começou a envelhecer. Como se envelhecer fosse o começo de qualquer coisa, e não o fim. E com espanto ela soube. Foi quando sentiu o medo pela primeira vez. Não o medo do escuro. Ou o medo de se perder da mão do pai no meio da multidão. Foi quando ela experimentou pela primeira vez o medo do abandono da alma. Da ausência de um deus - qualquer que fosse. O medo da falta de um governo para os seus dias de futuro. Medo. Eram muitos medos. E os piores medos são aqueles que não nos fazem chorar. Medos que não passam. Que crescem com os anos e se nos acumulam nas rugas em volta dos olhos, nos vincos em torno dos lábios. Secos. Nas mãos, que incertas, passam a tremer. As dela tremiam tanto, que nem os cravos conseguia mais expulsar do próprio corpo.

Pintura: Retrato de uma mulher velha, Balthasar Denner 1685 - 1749 (óleo sobre tela, 1720)
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