
A janela de madeira deixava passar o vento, o frio. Mesmo fechada. Deixava passar as imagens dos objetos revestidos de pó em cima da mesa. A mesa posta. Os talheres, copos de vidro, pratos. Notava-se também a ausência das formigas fazendo trilha sobre a toalha de mesa, mas a isso justificava-se a embalagem de manteiga vazia, os nacos duros de pão envelhecido.
Cortina já não havia mais. O que sobrou foram restos de tecidos carcomidos pelo tempo, que de tão curtos, se moviam rijamente à passagem da corrente de ar. O vento ali havia assumido o lugar dos saqueadores, corroendo a matéria em oposição à sua passagem.
O ranger das juntas da casa, falava pelos moradores ausentes. Clamava cuidados. Na ânsia de abrigar, o teto baixo se equilibrava em paredes tortas, que sustentavam quadros velhos, em que a poeira transformara o clima das paisagens pintadas de sol em rigoroso inverno - horizonte em permanente neblina.
A área em que a casa fora construída não era zona de guerra. Detendo-se no cenário, era possível ver imagens de um outro tempo. A grama aparada, as crianças correndo em volta das árvores, a mulher recolhendo as roupas do varal à chegada das primeiras gotas da chuva. Mas para deter-se no cenário era preciso enfrentar a ventania e a areia que espicaçava a pele, que feria os olhos.
O relógio de parede ainda contava as horas, mas nem seu solitário movimento mecânico dava vida àquele lugar. O lugar era uma paisagem devastada. Olhava-se a casa, e imediatamente um desejo de atirar pedras nela toda nos tomava de assalto.
Antes fossemos arrebatados subitamente, por uma peste, por uma violenta voragem. E por achar-nos tão desprevenidos na hora do espanto, talvez até acreditássemos na ideia de uma alegria, Talvez sentíssemos pesar ante a tragédia. A tragédia seria, antes de tudo, um acontecimento. O que não podíamos era suportar diuturnamente, a conta gotas, a areia mastigando a carne, deixando cada vez mais perto dos olhos as nossas vísceras e verdades.
O que faz uma gente abandonar um lugar? Um vaticínio? A voragem? O vaticínio de uma violenta voragem? O único agouro possível ali era a deserção.
Pintura: Casa giratória, Paul Klee 1879 - 1940 (guache sobre papel, 1921)







