domingo, 15 de maio de 2011

O ponto cego


E eu ouvia o barulho da roda do carro, rasgando a avenida. Eu também ouvia a chuva caindo insistente no vidro dianteiro, e sem tempo de escorrer suas gostas, ser espancada pelo parabrisa. Era como se o golpe fosse desferido na minha têmpora direita. Depois na esquerda. Na direita. Na esquerda. Direita. Esquerda. Quem batia era sempre o seu silêncio. Compassado. E todo o ruído exterior - porque nem nas trocas de marcha você ruía - era suprimido pelo seu mutismo hostil.

O caminho era longo. Era o caminho de volta, que sempre nos imprime um encurtamento de distâncias. Mas aquela rota ia longe, distante do lugar que nos aconchega quando retornamos. A casa para a qual regressávamos não acolhia.

Eu lembro de como você me segurava no colo. No início. Eu, parte criança. Órfã. Parte mulher. Prometida. Eu regresso na nossa história. Regresso? Não! Antes eu regrido, eu me aflijo, eu me agrido. E não importa em que ponto eu pare de lembrar, aquele corpo estendido na avenida, embrulhado num saco branco, quando eu tinha a idade banguela, continua lá. Foi o corpo que marcou o asfalto, e não o avesso. A chuva que caía naquela noite, ainda é a mesma que cai agora, e não lava nada. Não leva nada embora.

A chuva parou e você continua quieto. Você não diz nada. Você não faz curvas. Tem o olhar embotado. Tenho medo de um acidente. De um sinal vermelho que te passe em branco. Tenho medo, e por isso faço como você: olho para frente. Mas meu olhar capta tudo que nos é periférico. Os meus olhos registram a rua e seu movimento. Os meus ouvidos também estão atentos, e você continua calado.

Os meus ouvidos escutam um tic tac. Tic tac. Tic tac. Voltou a pingar. O tic tac é do parabrisa. O parabrisa volta a atingir minhas têmporas. Descortina a minha pele. Mas há um outro tic tac. E há um sinal vermelho que você vê. Ponto morto. Espera. A chuva para. O tic tac não. O parabrisa para. O tic tac não. Esse é diferente. Olho em volta. Há um homem que anda olhando para cima. Que anda sorrindo para o nada. Esse homem tem uma bengala. Ele a empenha com cuidado. Primeiro para a direita. Depois para a esquerda. Para a direita. Para a esquerda. Direita. Esquerda. O cego avança. E continuamos parados, por ruirmos nós. Esperando o sinal abrir.


Pintura: O desjejum do cego, Pablo Picasso 1881 - 1973 (óleo sobre tela, 1903)
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