quarta-feira, 20 de julho de 2011

O corpo de Cristo


Andava apressado pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, o médico no seu jaleco branco, que lembrava a capa de um herói em movimento. Em comum entre ele e o herói, a missão de salvar uma vida, que o médico sabia, dependia de sua presença para recusar o convite de sucumbir de chofre naquela manhã quente e abafada.

Ele transpirava nas têmporas, e era como se seu corpo, herdeiro de uma sabedoria ancestral, já chorasse em desespero, pelo funeral que iria acontecer se ele não chegasse a tempo.

Os prédios altos e as pedras do asfalto, condoíam-se com aquela figura pálida e de respiração ofegante, e ele pôde ouvir o relógio do centro do Largo da Carioca bater meio dia.

A cada badalada, suas veias saltavam como grossas raízes cavando espaços respiráveis na terra. Ele sufocava. O som de anunciação fazia eco em seu corpo miúdo e teso. Tão estupefato pelo soar do relógio ficou, que não reparou nos outros corpos que cruzavam o centro da capital carioca com a mesma pressa cega. Mas viu com espanto o vendedor de flores se aproximar e lhe oferecer um maço de rosas brancas. Sua resposta foi um seco aceno de mão em negativa, que quase fez tombar todas as flores que a figura risonha e sem dentes carregava.

Sentiu que o olhar do vendedor lhe queimava as costas enquanto se afastava em direção ao apartamento que dividia com Carolina, mas logo esqueceu-se das flores, do relógio, das badaladas e dos passantes, quando uma sombra tingiu as cores de cinza. Olhou para o céu e viu uma imensa nuvem pairar sobre o cenário do qual ele apressado queria se livrar para atingir o apartamento no qual sua esposa, mergulhada no silêncio de um país abandonado, ameaçava acabar com a própria vida.

Quando a nuvem cobriu o corpo do médico por completo, com pavor ele sentiu a dor da alma lhe invadir inteiro, e um grito surdo nascido em seu peito calou todos os ruídos e vozes. Com horror todos se voltaram para ele, e o silêncio foi interrompido pelas primeiras gotas de chuva que caíam daquela mesma nuvem que imprimiu um novo aspecto àquele inicio de tarde já tão sombrio.

A chuva foi o tiro de partida para a corrida desenfreada que o médico impôs aos seus determinados pés. Seu adversário era o tempo e seus ferozes ponteiros, que desde seu consultório o devoravam. As manchas em suas mãos, denunciando a madureza de seus dias, lembravam constantemente que seu tempo estava atrasado, ultrapassado. Tudo agora era apenas lembrança enterrada numa vala comum.

Ele corria, e os pingos grossos lhe chegavam com violência no rosto, e misturavam-se às lágrimas que escorriam dos olhos. Ouvia o barulho das sirenes com desespero. Imaginava que elas também tinham o mesmo destino.

E viu maças vermelhas e machucadas pelo atrito com o asfalto, rolarem na sarjeta em direção aos bueiros, levadas pela enxurrada. Velhos sem vigor nas pernas sendo tragados por ondas sujas de asfalto, que só não varriam a senilidade. A tempestade furiosa a todos chegava, mas o médico, entorpecido por tantas imagens e ecos e medos, perdia seu rumo, confundia a rota.

Começou a lembrar-se de flashes da última conversa por telefone com Carolina na manhã daquele mesmo dia. E as cenas lhe tomavam de assalto.

Cruzou ruas e avenidas, como um animal selvagem à força domesticado, solto de novo na selva, e viu a ambulância estacionada na frente do prédio. O carro vermelho contrastava com o saco preto estendido no chão, que cobria parcialmente o corpo. Só um dos pés de Carolina estava calçado, o outro estava nu e abandonado. Uma das mãos segurava um objeto, mas as pernas do médico cederam antes que ele pudesse se aproximar do cadáver. Ajoelhou-se perplexo.

Um dos vizinhos veio ao seu encontro, deu alguns detalhes que ele mal registrou, e o médico, respondendo à razão da queda disse apenas que não sabia, que não sabia.

Tomou coragem e quando se aproximou, uma rosa branca foi colocada em cima do saco preto, pelo vendedor de flores que se juntou aos curiosos. O velho sem dentes começou a rezar, e o médico com voz entrecortada apenas disse: somos ateus. Na mão esquerda de unhas roídas de tédio e terror, Carolina segurava um terço. A tempo de se despedir, a nuvem em forma de hóstia cobriu a todos com seu manto de sombra.


Pintura: Garota semi nua reclinada, Egon Schiele 1890 - 1918 (guache, aquarela e lápis com elevação sobre papel branco, 1911)
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