terça-feira, 2 de agosto de 2011

Adicto


Gostava de bater com força na tecla dura da máquina de escrever. De observar, como se tivesse ingerido substância lisérgica, o mundo em suspenso até que a letra batesse com força no papel branco, não! no papel agora sépia. Cada acorde seco e curto era uma fração do mantra que me entorpecia. Cada batida bastava para o meu episódio de mania.

As linhas cheias de letras desciam papel abaixo, e eu me abandonava no barulho hipnótico adentro meu abismo de inquietações. As perguntas reinavam sem réplicas, e eu ia ficando pequenino, cada vez menor, cada vez mais anêmico de respostas.

Gostava de castigar meus dedos, operários obedientes, de cabeças baixas e sempre a postos, mesmo quando o instante entre uma palavra e outra se prolongava e ia longe na madrugada profunda. Era justamente nesse hiato que eu me aproximava mais de mim, ou de vez me afastava. O horizonte baço do papel me fazia de joguete, e eu não podia contar senão comigo para me acudir. E a máquina a me esperar, como esperavam as mulheres ladinas pelo cair da noite.

Meus dedos eram a única evidência que eu de fato havia estado ali, sentado em frente à Underwood. Não fosse por gastar-me a luva de minha pele, a máquina seria tão somente uma miragem de silêncio. E era assim que na maioria das vezes eu a olhava da ponta do corredor. Como uma miragem. Algo que não nos pode ver, porque nem ao certo sabemos se existe. Eu a olhava com intimidade de amante e respeito de filho. Ela era antes um ídolo, que depois de ser tocada e dar-se à luz diante de meus olhos, causava-me dor. Ela nascia mas quem doía era eu. Doíam-me os dedos, sedentos do sangue espúrio que ela jorrava em tinta carmim. Era na gravidade daquelas noites que eu bebia o meu álcool e crescia o meu vício: a minha escrita pagã.

Havia tempo naquele tempo, e nem o tempo envelhecendo depressa pôde roubar-lhe a robustez. Ela ainda reina absoluta em seu trono e desperta cobiça. Depois dela, todos os meus amores foram efêmeros.

Gostava de bater com força na tecla dura da máquina de escrever.


Pintura: O princípio do prazer (retrato de Edward James), Rene Magritte 1898 - 1967 (óleo sobre tela, 1937)
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