
Giram em torno de mim. Numa ciranda infinita. Eles. Os meus personagens. Há aqueles impacientes. Que têm muito a dizer. E me encaram brutalmente como se a mim fosse atribuída a culpa pelos seus silêncios. Olho-os com a minha boca entreaberta sem batom nem cor. Assim, tento mostrar a essas figuras que ainda não tenho palavras com que lhes adornar os sentidos. Pois a mim também me faltam as letras certas para traduzir a eles meu mutismo. Como me aborrece esse drama. E como a mim eles me aborrecem. Esses personagens. São reis e messalinas. De becos e avenidas. E misturam-se numa rapidez plural. Criando novos espectros, me iludindo a ótica. Essa gente. Gente pobre. Gente rica. Essa gente doente. São nuvens de mau agouro e centelhas de redenção. E seus sorrisos dúbios me desconcertam. Independem de mim. Dominam-me e determinam como eu piso o chão. Alguns parecem não querer dizer nada. São tão absolutos em seus existires que prescindem explicações. Esses mansos me acolhem. Aceitam-me com meus pesares e minha palidez. Meus olhos fundos. Esses domados me esperam. Mas a espera é só um curtir de desânimos daqueles que querem gritar. Esses outros. Esses meus personagens. Também meus personagens. Se ao menos me soprassem o rosto, jogando para trás meus cabelos. Dando-me a sensação de movimento. Como se numa estrada eu estivesse, pronta a cruzar uma linha de chegada em que lá, no ponto de transição todas elas: as palavras!, estivessem a me esperar, já prontas em seu fundo e forma. Assim eu lhes saciaria a sede de dizeres, e me esvaziaria, então. Pois também as palavras se produzem e no mesmo instante se afogam em minha garganta. Desordenadamente. Não posso beber nem respirar. Apenas sou. Ponte ou intermédio sem começo nem fim, como uma ciranda infinita.
Pintura: A dança, Henri Matisse 1869 - 1954 (óleo sobre tela, 1910)







