AAcordo ouvindo o barulho da chuva, chuva forte, a primeira depois deste seco mês de Agosto. Sinto doer meu joelho, lembro da operação, viro para o lado e penso que não preciso levantar, posso fazer o que se deve fazer num dia de chuva, tomar um gole d’água, ir fazer xixi, me enroscar no travesseiro e voltar a dormir.
Sono gostoso de final de noite, já manhã, sonho, sonho muito. Sonho... sonho com o que mesmo? Foram tão bons os sonhos que tive vontade de escrevê-los, mas como não já não guardo caneta e papel no meu criado-mudo, fui buscar o computador, no que o abri, entrei na minha caixa de e-mails e respondi quatro assuntos completamente diferentes, aí sim, abri o word para escrever os sonhos e... sumiram, sumiram! Tento me concentrar para lembrar, mas toca o celular, mais um assunto. E os sonhos? Fecho os olhos para tentar rever, mas a luz da tela me impede de ver lá, lá onde estão os sonhos. Sinto doer o joelho e lembro que preciso levantar, ir fazer exames médicos para a cirurgia e levar os papéis ao seguro saúde para obter uma prévia de orçamento para pagamento dos honorários médicos.
Leio, ouvindo o barulho da chuva, a mesma chuva que continua a lavar a cidade. A minha é outra, mais barulhenta que a sua, mais poluída, portanto, precisa de mais água, de mais lágrima para se render de seus pecados multicoloridos, multifacetados. As múltiplas faces do cenário da minha, da sua cidade, são o reflexo dos múltiplos estados de consciência que vivemos: eu na vigília, eu no sono, no sonho. Sonhos? Eu também já tentei ser Dali, e trazer para a vigília o sonho sonhado na penumbra da noite, no lusco-fusco de minhas pálpebras cerradas. Afinal, o negro da noite as nossas cidades não conhecem mais. Não fosse pela atividade frenética após o pôr do sol, seria pelo brilho da auréola dos santos que lhe dão os nomes. Mas o sonho continua na sua zona de mistério, como misteriosa é a letra que separa o sono do sonho, a letra muda que grita as diferenças entre um e outro estado. Acendi o abajur sobre o mistério, mas com a luz espantei os dois: o sono e o sonho.
Lembro-me de um tempo em que minha maior atividade era a inércia de sonhar. Era na vertical que meus pés descansavam. Sonhava...sonhava com o que mesmo? Não lembrava e agora já não me lembro de não lembrar. Essa tela de computador é um rosto de olhos abertos que espanta a experiência vivida na memória. Não lembro dos sonhos, do tempo sonhado, mas lembro da dor. Ela ainda está aqui, lembrando-me que vivi algo real, marcado no corpo, cicatrizado. Como será a cicatriz de um sonho? Será a mesma da chuva que espanca o asfalto? Eu nunca vi a marca da chuva no chão da cidade, mas ela está lá, acolhida no mesmo mistério do sonho.
Pintura: A chuva, March Chagall 1887-1985 (óleo e carvão sobre tela, 1911)







