terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Gota

Constatei o fato, então. Você foi embora cedo demais, e as palavras chegaram tardiamente. Nesse hiato me entorpeci, atendendo a convites outros. Fui aos poucos me fazendo, compondo-me de achados, antes perdidos ou desprezados.

Agora preciso gastar-me. Letra a letra vou desfazendo essa existência que já não reconheço minha, mas que ainda está em mim. Torpe. E as palavras chegam-se-me esparsas. Descem de algum lugar que não consigo apreender. E não me preenchem, corroem. Vejo-me escoar da matéria da qual fui feita. E com certo alívio.

Esgoto as palavras que me sobrevém, gotejantes. E com elas mesmas me lavo, me esvaio num laivo de lucidez, gota a gota. Da gota ao grito. Esgoto-me. E é como se eu estivesse pedindo perdão.

Escrevo para desaprender a vida. Escrevo porque me envergonho da minha voz. E do que se me resta, ainda sorrio. Mas como dói.


Pintura: Mulher nua contemplando seu próprio corpo transformando-se em etapas, três vértebras de uma coluna, céu e arquitetura, Salvador Dali 1904 - 1989 (óleo sobre tela, 1945)

11 comentários:

  1. Ana

    Tão triste e tão bonito ao mesmo tempo!
    Dói sentir, mas agrada ler.


    Um abraço

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  2. Gostei do texto!
    Grande abraço!

    http://misartorelli12.blogspot.com/

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  3. Dói toda reconstrução, pois todo e qualquer renascimento só é possível através do esgotamento de si mesmo, sem nem mesmo a presença do nada, corroendo os signos até a última memória.Reiniciando, como o big bang.

    Fernanda

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  4. estava sentindo falta das suas palavras.
    bjs

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  5. Ana. Este é o texto sue que mais gostei de ler até hoje. Tem tempo que não visito seu blog, mas senti saudades!

    thebelement.blogspot.com

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  6. Porra, você é muito foda. Qualquer elogio que eu lhe fizer parecerá babaca. Eu escrevo o que sairia besta dito em voz alta, ou cara a cara com outra pessoa que não compartilhe da mesma cabecinha lunática.

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  7. Devagar estou voltando e como sempre lendo seus devaneios.

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